01 de julho de 2024

Inteligência Artificial, Inovação & Pessoas - Os novos horizontes dos serviços de águas

Apesar da evolução significativa no passado, é certo que o setor do abastecimento de água e do saneamento em Portugal carece de uma aposta na inovação e nas novas tecnologias, como as que a Inteligência Artificial (IA) potencia, para se tornar mais eficiente e sustentável. Contudo, esta vai ser uma meta impossível de alcançar sem o devido financiamento de projetos e investimento efetivo nos recursos humanos. Os desafios, benefícios e receios que impactam as infraestruturas do setor, e as próprias organizações, marcaram a Conferência “Inteligência Artificial, Inovação & Pessoas”, organizada pela APDA, através das Comissões Especializadas de Inovação e de Sistemas de Informação e do Núcleo de Jovens Profissionais da Água, a 20 de junho, na Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, Torres Novas.
 

O primeiro painel do encontro centrou-se na partilha de visão, experiências, estratégias e projetos por entidades como a Isle Utilities, a Águas e Energia do Porto, a INDAQUA e a AdP Valor. A importância da inovação dentro das organizações, a articulação e o acompanhamento a realizar de forma integrada pelas diversas áreas, o investimento e o envolvimento nos colaboradores, bem como os desafios associados ao processo de implementação foram as principais situações apresentadas, que incentivaram a uma reflexão sobre o verdadeiro significado da inovação, demonstrando também que esta pode ser mais simples e prática do que parece.
 

Dedicado ao financiamento da inovação, o segundo painel centrou-se inicialmente na distinção entre financiamento não reembolsável (subsídios) e financiamento reembolsável. Na primeira vertente, entidades gestoras como os SMAS de Almada e a Aquapor partilharam as suas experiências na participação em programas nacionais e comunitários de apoio à inovação, tendo a discussão sido enriquecida pelos contributos da Agência Nacional de Inovação, entidade fulcral no ecossistema nacional de promoção da inovação. Projetos colaborativos entre entidades gestoras, como os que têm sido promovidos pelo LNEC, foram destacados como um mecanismo muito eficaz a manter e reforçar no futuro. Atendendo às características dos sistemas de registo contabilístico da vasta maioria das entidades gestoras, a capacidade de monitorização da inovação, através do sistema de reporte de informação à entidade reguladora, não deixa de ser algo limitada. Sem prejuízo, a ERSAR partilhou iniciativas inspiradoras como o “Fundo de Inovação” da OFWAT (entidade reguladora britânica) e concluíram-se os trabalhos da manhã com o anúncio público da primeira edição do Prémio de Inovação da ERSAR.
 

Os trabalhos da tarde iniciaram com um painel dedicado a explorar o uso de IA na gestão dos serviços de águas, tendo sido apresentados estudos, metodologias e soluções já testadas, nomeadamente de machine learning, com foco na otimização de processos, bem como abordagens ao gémeo digital e ao impacto e resultados da implementação desses projetos nas Entidades Gestoras. Tendo em conta que a IA pode tornar-se numa ferramenta de apoio à tomada de decisão, ficou claro que contribui ativamente para a sustentabilidade e resiliência das infraestruturas e sistemas hídricos, bem como para a otimização de recursos, sendo fundamental garantir a transparência dos modelos e a quantificação, racionalidade e estabilidade dos resultados. A AGS, SCUBIC, Instituto Politécnico de Setúbal, Bentley Systems e Baseform foram as entidades representadas nesta sessão.


O impacto da IA Generativa no futuro do trabalho foi o último tema a ser debatido na conferência, tendo contado com as intervenções da Agência Nacional de Inovação, da Microsoft, da Google, do Montepio Crédito e da EY Consulting, que exploraram o potencial transformador da IA Generativa. A mesa-redonda iniciou-se com a discussão sobre ferramentas como o Copilot da Microsoft e o Gemini da Google, que democratizam a IA Generativa e tornam esta tecnologia acessível, redesenhando processos organizacionais. Foi igualmente abordada a aplicabilidade da IA Generativa na indústria dos serviços de águas, tendo sido demonstrado como esta pode redefinir a operação e inovação das entidades gestoras do setor, bem como de outras indústrias, como o retalho e os serviços financeiros. Apurada a necessidade de desenvolver novas competências para os profissionais do setor da água, foi enfatizada a capacidade de dar instruções corretas a sistemas de IA. Além disso, foi projetada a transição para a era da eficiência cognitiva e do Homo Digital, com robôs a desempenhar tarefas operacionais sob supervisão humana. Foram também discutidos os agentes digitais especializados e a transição de grandes modelos de linguagem (LLM) para grandes modelos de ação (LAM), treinados em áreas específicas. Quanto ao impacto no emprego e na economia, destacou-se a necessidade de adaptação das competências profissionais, e desenvolvimento de novas, para mitigar as desigualdades sociais que podem ser exacerbadas pela automação. O desfecho do painel levantou as questões éticas e a necessidade de regulamentação adequada, destacando a legislação da União Europeia, nomeadamente o IA Act.

    
          

 

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