APDA DEBATE IMPACTOS DAS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS NO SETOR DA ÁGUA

20/03/2013

Atenta aos principais assuntos que interessam ao setor da água, a APDA, através da sua Comissão Especializada de Qualidade da Água (CEQA), levou a efeito, no passado dia 14 de março, um Encontro subordinado ao tema “Alterações Climáticas – Escassez de Água e Eficiências Energética e Hídrica no Ciclo Urbano da Água”, que decorreu no auditório do edifício da Águas de Portugal, em Lisboa.

Com este Encontro – integrado nas comemorações do 25.º aniversário da APDA – a Associação pretendeu proporcionar às entidades gestoras um fórum para a partilha de conhecimentos e experiências sobre os efeitos das alterações climáticas em curso na escassez de água a nível nacional, bem como dar a conhecer medidas implementadas que contribuam para as eficiências energética e hídrica no ciclo urbano da água.

Na Sessão de Abertura do Encontro usou da palavra Gonçalo Martins Barata (Administrador da AdP – Águas de Portugal) que, na qualidade de anfitrião, referiu que todas as empresas do grupo “têm a ganhar com esta partilha de experiências sobre o impacto das alterações climáticas” e salientou a importância financeira da questão, afirmando que nas empresas do grupo AdP, “o peso da fatura energética é um terço dos custos totais” e é “cada vez maior”.

Também Isabel Ricardo, Vice-Presidente da APDA, realçou a importância deste Encontro para o setor, incluindo as problemáticas relacionadas com as alterações climáticas no rol dos principais desafios que se colocam atualmente às entidades gestoras. Elencou os principais documentos europeus nesta área, salientando a importância do “Blueprint to Safeguard Europe´s Water Resources” enquanto documento que estabelece as principais diretrizes da política europeia para a água a longo prazo. Relembrou ainda que a APDA se encontra a comemorar o seu 25.º aniversário e destacou as principais iniciativas previstas no âmbito dessas comemorações que culminarão em novembro, em Coimbra, com a realização do ENEG 2013.

Na sua intervenção, Maria João Benoliel, coordenadora da CEQA, realçou o trabalho desenvolvido por esta Comissão no âmbito dos temas abordados neste Encontro, nomeadamente ao nível do uso eficiente da água em edifícios, da mitigação das alterações climáticas e da redução de perdas, chamado a atenção para a forma como a APDA pode ajudar as entidades gestoras a enfrentar estas matérias candentes.

Na Sessão 1 – Alterações Climáticas e Plano de Ação Nacional começou por intervir Filipe Duarte Santos (FCUL – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), autoridade mundial em matéria de alterações climáticas, que chamou a atenção para aquilo a que apelidou de “a grande aceleração (1945 – 2008)” e para os quatro fatores de insustentabilidade, entre os quais se incluem as alterações climáticas. Realçou o aumento estatístico significativo dos eventos meteorológicos e climáticos extremos (precipitação e temperatura), nos diferentes contextos. Apresentou dados que indicam que a contribuição do setor da água para as emissões de gases com efeito de estufa é da ordem dos 3%. Alertou ainda para o facto de não haver garantia que os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio sejam cumpridos, tendo traçado alguns cenários futuros de interligação entre água e energia.

José Paulino (APA – Agência Portuguesa do Ambiente) apresentou as principais linhas de força da ENAAC – Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas, respetivo estado da arte e cenários futuros. Realçou os principais objetivos, grupos setoriais e o follow up decorrente da experiência do modelo da ENAAC 2010-2013, tendo em atenção a Estratégia Europeia de Adaptação 2013 (que será lançada a 29 de abril em Bruxelas). Apresentou ainda o Programa AdaPT (tipologias de projetos a apoiar) e os principais aspetos sobre o Comércio Europeu de Licenças de Emissão e o futuro Quadro Estratégico Comum (2014-2020). Referiu que as ligações entre água e energia serão área a privilegiar, nomeadamente numa Conferência Internacional de Adaptação às Alterações Climáticas, intitulada “Too Much, too Little – The Role of Water in Adaptation to Climate Change”, a realizar em Lisboa (apenas por convite), entre 7 e 9 de outubro de 2013.

Pedro Viterbo (IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera) reforçou a tendência de diminuição da precipitação, focando-se nos diferentes tipos de seca (agrícola, meteorológica e hidrológica), em especial nos dois primeiros (3 a 6 meses). Salientou a importância das previsões decadais enquanto ferramentas de apoio à tomada de decisões estratégicas para o setor público e empresarial, tendo por base os diferentes cenários de desenvolvimento sócio-económico e a sazonalidade dos recursos hídricos portugueses. “As observações e modelos em Portugal sugerem um aumento das situações de seca e da sua gravidade”, perspetivando-se o agravamento das tendências atuais nos próximos 30-60 anos.

Rui Sancho, da CEQA/APDA, introduziu a problemática com dados de Portugal, da União Europeia e da EUREAU, destacando cinco pontos fundamentais: alterações climáticas e eventos extremos, eficiência energética, eficiência hídrica, ciclo do carbono e inovação. Apresentou os principais resultados do inquérito promovido por aquela Comissão sobre “Alterações Climáticas – Impacto no Setor da Água”. Este inquérito foi enviado a 349 entidades gestoras com o objetivo de obter uma imagem atual do País nesta matéria, tendo sido obtidas 80 respostas (23%). As maiores taxas de avaliação dos impactos das alterações climáticas e de preocupação com a eficiência energética foram registadas na região de Lisboa e Vale do Tejo. Por seu turno, foi no Algarve que se verificou a mais elevada percentagem de ações previstas e/ou em curso. Rui Sancho concluiu ainda que a maioria das entidades gestoras não avaliou e planeou o impacto das alterações climáticas, estando aparentemente mais preocupadas com a eficiência energética do que com a eficiência hídrica, certamente por razões de índole financeira relacionadas com a contribuição para a fatura energética.

Na Sessão 2 – Escassez de Água e Medidas de Contingência foram apresentados interessantes casos de estudo provenientes de entidades gestoras, designadamente da EPAL (projetos Adaptaclima e WONE), da Águas de Trás-os-Montes e Alto Douro (identificação de ações em cenário de seca naquela região do interior do País) e da Águas do Algarve (alternativa de origens de água e planos de contingência). Francisco Serranito (EPAL) referiu que o projeto WONE permitiu que as perdas na rede em Lisboa fossem reduzidas de 23% (em 2005) para 9% (em 2012), com as consequentes diminuições de emissões de CO2, de consumo energético e de reagentes químicos.

Na Sessão 3 – Medidas de Eficiência Hídrica e Energética foram dados a conhecer as perspetivas da ADENE – Agencia para a Energia, da Águas do Douro e Paiva e da Luságua (grupo Aquapor). Miguel Feliz, da ADENE, salientou a articulação entre a gestão hídrica e energética e as questões relacionadas com a eficiência. “A água deve ser encarada como uma componente importante no consumo de recursos de uma cidade sustentável”, disse. Alberto Afonso apresentou a evolução do modelo de gestão de energia e as medidas de eficiência energética na Águas do Douro e Paiva. Tiago Parente debruçou-se sobre as questões da otimização energética no grupo Aquapor, elencando medidas de gestão de energia e de otimização de sistemas.