O IMPACTO DO AQUECIMENTO GLOBAL NOS FUNGOS DE ÁGUA DOCE

13/02/2019

O aquecimento global está a alterar as comunidades de fungos de água doce, especialmente as de ambiente mais frio ou com reduzidas oscilações de temperatura. De acordo com o estudo internacional do Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), este impacto nas teias alimentares pode modificar os ciclos biológicos e geoquímicos e comprometer os serviços do ecossistema e do bem-estar humano.

A investigação, publicada na revista Science of the Total Environment, é a primeira realizada à escala global sobre a diversidade de fungos aquáticos em ribeiros de floresta distribuídos ao longo de um gradiente latitudinal (do equador em direção aos polos), baseado em técnicas moleculares de nova geração (Illumina NGS). A mesma surge também na necessidade de documentar a distribuição em larga escala dos microrganismos aquáticos que, apesar do valor ecológico inerente, não tem tido o mesmo nível de atenção do que os microrganismos do solo, cujos padrões de distribuição das espécies pelo globo estão já bem definidos.

A partir da análise das comunidades de fungos de 19 rios, distribuídos pelos dois hemisférios, a equipa composta por 32 investigadores de 18 países, verificou “que o número de espécies de fungos varia consoante a latitude, isto é, o número de espécies é maior nas regiões temperadas de média latitude, como por exemplo Portugal e Espanha. Este padrão de distribuição diverge do padrão global, pois enquanto o número de espécies de plantas e animais diminuem quando nos afastamos do equador, os fungos aquáticos diminuem perto do equador e dos polos”, explica Seena Sahadevan, coordenadora do estudo.

A também investigadora do MARE sublinha ainda que “a composição das comunidades de fungos difere claramente com a temperatura da água, tendo sido registados três grupos distintos independentemente do hemisfério onde se encontravam”.

Os ecossistemas de água doce têm um papel relevante no ciclo global do carbono, inclusive os pequenos ribeiros de floresta em que a principal fonte de carbono reside nas folhas e detritos vegetais que caem sobre o leito e aí se decompõem. Este processo de decomposição é conduzido pelos fungos aquáticos: ao libertarem substâncias para digerir as folhas também as tornam apetecíveis para consumidores invertebrados, e por sua vez estes servirão de alimento a predadores como ninfas de libélula e peixes, dinamizando as relações tróficas.