ANTÓNIO GUTERRES E A EMERGÊNCIA CLIMÁTICA

21/06/2019

 

Este poderia ser o título do artigo que a revista Time irá publicar em papel no próximo dia 24 de junho, mas que já se encontra online e cuja foto de capa dificilmente conseguiria ser mais sugestiva. Ver António Guterres vestido de fato e gravata com água do mar pelos joelhos e a dizer que o nosso planeta está a afundar-se é, sem dúvida, uma excelente forma de chamar a atenção para um problema real, global e urgente: as alterações climáticas, cujos efeitos negativos vão muito para além da subida do nível médio do mar. Nesse artigo, o jornalista explica como:

·       as  ilhas  do Pacífico já  estão e  vão ser  ainda  mais  afetadas  pela subida  do  nível  do  mar  e  por tempestades de grande intensidade, sendo exemplos as consequências financeiras (ex.: estima-se uma perda anual de 5% do PIB das ilhas Fiji), sociais (ex.: deslocalização de povoações inteiras para terrenos a cotas superiores), económicas (ex.: a passagem de um ciclone tropical em 2016 afetou a indústria e a produção e consequente cadeia alimentar) e até de soberania - quer devido ao provável desaparecimento total de pequenas ilhas-nação, quer devido a perda de poder económico: “A country can survive only so many storms whose costs match annual GDP” é uma das frases que se pode ler e que fica a ecoar…

·   os líderes da região do Pacífico juntaram-se, de uma forma notável, e conseguiram mobilizar as negociações do Acordo de Paris e os subsequentes relatórios do IPCC, pressionando para que a meta a atingir no final do século fosse de 1,5 ºC em vez dos 2,0 ºC propostos face à era pré-industrial. Efetivamente, vendo os respetivos países a desaparecer, não ficaram de braços cruzados e fizeram questão de que os líderes de grandes potências económicas fossem visitar as suas ilhas in-loco, mantendo negociações multilaterais, angariando apoios financeiros da UE e dos EUA para medidas de adaptação, e, claro, dando o exemplo, ao contribuir com a sua parte no que respeita à diminuição das já de si (comparativamente) reduzidas emissões de GEE. “not all successes are created equal. Indeed, it may be their [Fiji] loss that finally rouses the world to the stakes of the challenge” é outra das frases que nos deixam a pensar…

·      os fenómenos associados às alterações climáticas são globais - afetando não só os países do Pacífico, foco do artigo, mas tantos outros, incluindo países mais ricos como a Austrália ou EUA. E, de igual forma, requerendo uma resposta global: “no one nation can solve a problem as complex as climate change alone, but together bands of nations can make a difference”, pode ler-se ainda.

Para além das lições e exemplos contidos nos pontos anteriores, já de si bastante fortes, a leitura deste artigo suscita-me ainda outras ilações: por exemplo, como a necessidade de sobrevivência aguça o engenho e a persistência, levando um conjunto de pequenas nações a ter um papel tão determinante nas negociações globais referentes aos acordos climáticos; como às vezes só quando alguns “batem no fundo” - neste caso, “se afundam” - é que outros despertam para o problema; e como o “ver para crer”, ou o “calçar os sapatos dos outros” - não foi por acaso que os líderes de grandes potências mundiais foram convidados a ir às ilhas do Pacífico -, são uma poderosa arma de persuasão, porque apelam à mais genuína e universal característica que distingue os seres humanos dos restantes animais: a sensibilidade à condição do outro, que convida à solidariedade e compaixão.

É oportuno referir que todas as ideias chave descritas no artigo da Time foram debatidas e apresentadas na ECCA 2019 - a Conferência Europeia de Adaptação às Alterações Climáticas – que se realizou em Lisboa nos passados dias 28 a 30 de maio, especialmente no que se refere ao Tema 5 - Global Climate Challenges (as sessões da ECCA estavam organizadas em torno de seis temas). Tive o privilégio de ser correlatora deste tema, sintetizando primeiro o estado atual e depois aqueles que foram os principais pontos desta temática discutidos na ECCA. E, sem dúvida, o caso das nações do Pacífico relatado pela Time surge como um exemplo concreto das questões relacionadas com os Desafios Globais ligados às Alterações Climáticas, nomeadamente (i) a desigualdade e justiça social, com os países mais pobres (com menos meios para se adaptarem), a sofrerem os maiores impactes; (ii) a cooperação global, sendo o combate e a adaptação às alterações climáticas um fator que poderá contribuir para um mundo mais cooperativo ou, ao invés, mais individualista, aumentando o fosso entre os países ricos e os países pobres; (iii) os perigos associados ao aumento superior a 1,5 ºC; (iv) a necessidade de sensibilização para a urgência em se adotarem medidas de mitigação das emissões, medidas de adaptação aos efeitos presentes e esperados no futuro e medidas de redução do risco em caso da ocorrência de desastres.

Por último, importa sublinhar que a mensagem final da ECCA é que ainda estamos a tempo de travar o aquecimento global e de o conter dentro dos 1,5 ºC até ao final do século. Porém, cada um terá de fazer a sua parte em termos de Mitigação (redução de emissões), não só enquanto nação, mas também enquanto indivíduos - vamos a isso? Para além da Mitigação, ficou patente que a Adaptação é crucial. Talvez não venha a ser necessário em Portugal vir a deslocalizar povoações inteiras, como já sucede nas ilhas do Pacífico, mas certamente muito haverá a fazer no campo da Adaptação a outros efeitos das alterações climáticas. A CEAAC - Comissão Especializada de Adaptação às Alterações Climáticas - da APDA encontra-se a desenvolver uma série de ferramentas que vão permitir às Entidades Gestoras melhor percecionar a sua vulnerabilidade às Alterações Climáticas e delinear a sua estratégia de Adaptação. Fique atento!

A ECCA

Local: Belém, Lisboa, Portugal

Data: 28 a 30 de maio 2019

Organização: Projetos europeus PLACARD, BINGO e RESCUE com o apoio da CML e do MATE

Temas:

         i.            Data, methods and approaches in climate change adaptation and disaster risk reduction

         ii.           Co-production of knowledge, solutions and services

        iii.            Communication, data-sharing and decision support

        iv.            Institutions, governance, citizens and social justice

         v.            Global Climate Challenges

        vi.            Climate risk management and resilience

Recursos: disponíveis no canal do Youtube da ECCA vídeos das sessões plenárias, resumos do dia, entrevistas a oradores convidados e aos relatores dos temas. Ver aqui.  

 

 Nota: Artigo escrito por Ana Margarida Luís, coordenadora do CEAAC da APDA.




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