ÁGUAS RESIDUAIS REVELAM COMPORTAMENTO DA SOCIEDADE

21/05/2020

A Sociologia do esgoto é a disciplina científica que permite analisar hábitos, comportamentos e consumos diários de comunidades ou aglomerados sem ser preciso ir a casa das pessoas. Em entrevista ao Expresso, Conceição David, engenheira da Águas do Tejo Atlântico, explicou como a análise de amostras de águas residuais decifra os hábitos da população e até a diferença sentida antes da COVID-19 e no período pós-pandemia.

Foi possível observar, por exemplo, que as pessoas andaram a acordar duas horas mais tarde do que era hábito e que, em fase de início desconfinamento, há um regresso progressivo à normalidade. A informação disponibilizada permitiu também verificar, em média, as horas de almoço e de deitar, sendo que a falta de atividade noturna nas cidades alterou para mais cedo a hora de ir dormir.

Em declarações ao mesmo jornal, Eugénia Cardoso, coordenadora do laboratório da Águas do Tejo Atlântico, afirmou que “as águas residuais são um espelho de tudo o que consumimos e de como nos comportamos”, lembrando  que “o que é excretado através da urina e das fezes vai parar às grandes estações de tratamento sem controlo, o que transforma as ETAR numa ferramenta de enorme potencial ao nível epidemiológico e de estudo dos comportamentos e hábitos de uma determinada população”.

Ao ser devidamente analisado, o esgoto traduz-se numa ferramenta muito valiosa, veja-se, por exemplo, na monitorização de consumo de drogas ilícitas e lícitas (fármacos).

De acordo com o Expresso, e no âmbito das primeiras, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência usa as amostras recolhidas nas principais ETAR de cidades europeias para perceber esta realidade. Segundo as indicações mais recentes, registou-se, em Lisboa, uma redução do consumo de drogas como a cocaína, o ecstasy (MDMA) ou as anfetaminas, o que contrasta com um aumento generalizado noutras cidades europeias. Apesar de os números revelarem uma descida no uso das drogas, a alteração está mais relacionada com o aumento das quantidades registadas nos esgotos de outras cidades europeias. Mas o consumo de ecstasy e de anfetaminas na capital portuguesa também demonstrou ser mais reduzido.

Não é possível saber quem consome os estupefacientes, mas a análise às águas residuais consegue apurar as quantidades em circulação e quais as características. Segundo os últimos dados, “a pureza” da cocaína tem aumentado e, tal como o ecstasy, é sobretudo consumida entre sextas e segundas-feiras nas grandes cidades da Europa Ocidental e do Sul, e menos nas do Leste. Por outro lado, as anfetaminas são mais consumidas no Norte e Leste da Europa. É também visível que as cidades com mais estabelecimentos de diversão noturna e universidades estão associadas a maiores níveis de adição.

No que diz respeito aos fármacos, as mesmas análises possibilitam aferir quais os mais usados pela população e as respetivas quantidades. Neste sentido, e tendo em conta estudos levados a cabo pelo LNEC - Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Faculdade de Farmácia, Águas do Tejo Atlântico ou EPAL, permitiram perceber que os antidiabéticos são os mais presentes nas águas residuais das ETAR de Lisboa, seguidos dos analgésicos e dos antipirético. Os menos abundantes são os betabloqueadores, os anti-inflamatórios não esteroides e os antibióticos.

De acordo com o mesmo jornal, os esgotos também podem servir de “sistema de alerta precoce” para futuras vagas do vírus SARS-CoV-2. Aliás, este é um dos objetivos do projeto COVIDETECT, coordenado pela empresa Águas de Portugal e conduzido por investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e do Laboratório de Análises do Instituto Superior Técnico.

Ainda em fase de validação de metodologias, o projeto prevê avaliar amostras de águas residuais de cinco ETAR das principais áreas metropolitanas, de forma a realizar uma modelação epidemiológica das cargas virais e a sequenciação do genoma do vírus excretados através das fezes e da urina. Estudos semelhantes, já em curso noutros países, permitem estimar o número de pessoas infetadas nos aglomerados populacionais e, de forma não invasiva, abranger milhares de pessoas não testadas ou assintomáticas.