“A GESTÃO DO TALENTO NO SETOR DA ÁGUA” EM SESSÃO GRAVADA DISPONÍVEL

13/10/2020

A identificação das dificuldades relativas à captação, retenção e gestão do talento dentro das Entidades Gestoras, bem como os mecanismos para as ultrapassar, marcaram o webinar organizado pelo Núcleo de Jovens Profissionais do Setor da Água (JOPA) da APDA. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Após um enquadramento do tema “A Gestão do Talento no Setor da Água” e breve descrição sobre o JOPA, criado em 2013 e que conta com 22 elementos de diferentes Entidades Gestoras um pouco por todo o país, incluindo ilhas, Joana Barros, Engenheira do Ambiente na Águas do Porto, representou este Núcleo como moderadora da sessão.

Reinaldo dos Santos, Professor do Instituto Universitário da Maia, trabalhou o tema em três atos: o talento nas pessoas, as pessoas nas organizações e as organizações no setor da água em Portugal. Começando por descrever o talento, que consiste em alto desempenho ou um potencial para tal, afirmou que as equipas talentosas são as que apresentam alto rendimento e/ou que preveem resultados de excelência a longo prazo. Mas a demarcação destas pessoas está na combinação crucial de três dimensões: Ação, Paixão e Visão. Ou seja, aliam a competência técnico-comportamental à paixão pela atividade desempenhada, com muita motivação e entusiasmo no que é realizado, tendo, em simultâneo, uma visão capaz de perspetivar as consequências das respetivas ações. Por isso, em função de um objetivo nem sempre imediato, conseguem suportar tarefas, por vezes extenuantes, porque sabem que o valor trazido é positivamente retroativo. E o talento é inato? Certamente que existem pessoas que nascem com essa condição, mas a verdade é que esta pode tornar-se numa variável, já que, no âmbito das organizações, pode ser amplificado e acrescido ou, por outro lado, diminuído ou mesmo destruído. Para haver uma concretização do talento, o profissional tem de se sentir alinhado com a estratégia e políticas da empresa a que está ligado, caso contrário, a motivação para o alto desempenho esmorece. E aqui podem surgir duas situações: ou se demitem e vão para outra organização, onde conseguem explorar o respetivo talento, ou demitem-se, sem saírem efetivamente, o que, na opinião do especialista, é mais trágica para a empresa, mas, principalmente, para o profissional. No que diz respeito ao setor da água, o especialista apresenta algumas características que podem ajudar a cativar pessoas talentosas para o setor, sublinhando duas: a estabilidade de negócio, que pode antever o vínculo profissional a longo prazo, bem como a possibilidade da pessoa poder trabalhar numa área relacionada com o ambiente, uma gratificação com muito impacto para o desenvolvimento pessoal. Reinaldo dos Santos sublinha, entretanto, que sem desenvolvimento e sem atuação é impossível ter organizações talentosas.

Antes de se debruçar sobre a temática, João Pintassilgo, Vice-Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e com competências na área dos recursos humanos e na área da água e higiene urbana, relembrou que as bases do webinar assentam nos resultados do inquérito “A importância dos jovens nas Entidades Gestoras dos Serviços de Águas”, conduzido pelo JOPA e apresentado no ENEG 2019 - Encontro Nacional de Entidades Gestoras de Água e Saneamento, realizado pela APDA em novembro, no Montebelo Vista Alegre Ílhavo Hotel. Sendo a formação e a consequente aquisição de conhecimento a principal alavanca para o desenvolvimento da economia, João Pintassilgo reiterou que, no caso português, houve já uma evolução muito significativa, sendo que, nos últimos anos, tem-se assistido à entrada gradual no mercado de trabalho da camada jovem mais bem preparada de sempre, o que começa a fazer a diferença no valor profissional de Portugal. Mas esta é uma mais-valia a que nem todos os setores de atividade do país têm tido acesso, nomeadamente o da água. A assimetria dessa realidade é ainda maior entre as Entidades Gestoras públicas e privadas, até porque as primeiras constituem 89% das existentes a nível nacional. Apesar de admitir que no município do Barreiro tem sido possível identificar e manter jovens quadros com elevado potencial, João Pintassilgo identificou as principais causas para este tipo de situação. Nas Entidades Gestoras públicas, os obstáculos começam, desde logo, pela legislação de contratação e de renovação de quadros e tabelas de renumeração injustas. Na exceção de se admitir jovens com perfil de formação, existe a falta de ferramentas de gestão para retê-los, sendo premente transmitir à hierarquia a necessidade de promover o envolvimento dos jovens, numa perspetiva de participação e iniciativa. A implementação de alguns procedimentos é também fundamental para a gestão de recursos, nomeadamente no que à transmissão de conhecimento geracional diz respeito. Isto porque quem chega traz conhecimento novo, métodos e novas tecnologias, mas precisam sempre do know-how dos séniores. Promover uma delegação de competências nos jovens quadros é imperativo, mas há que ter o devido cuidado e monitorização. A hierarquia deve também, por isso, providenciar o envolvimento dos séniores em toda a transformação, de forma a não se sentirem “assombrados” pela presença dos jovens, uma realidade cada vez menos frequente, mas ainda existente. Cultura organizacional, políticas de recompensa, trabalho de equipa, incentivo à iniciativa, capacidade de liderança, desafio à mudança, atenção ao potencial dos novos quadros, bem como a criação de empatia entre o jovem e a organização, obviamente a par de uma agilização da legislação contratual pública, são apontados por João Pintassilgo como processos-chave para a captação, retenção e gestão de talentos.

Antes de apresentar o Programa de Trainees Wave, Fátima Borges, Diretora de Sustentabilidade e Responsabilidade Social do Grupo Águas de Portugal, realçou que para se trabalhar no setor da água e do saneamento é essencial ter espírito de missão, propósito e compromisso. No âmbito da organização que representa, explicou que o Programa Wave, implementado em 2017, tinha como objetivos renovar os quadros e as competências do grupo, reforçar a notoriedade dos jovens, responder à renovação geracional, permitir a experiência dos jovens com profissionais experientes, aproximando o Grupo AdP do meio académico e introduzir novas formas de pensar dentro da organização. De centenas de currículos de várias instituições de ensino foram recrutados 20 trainees, que foram integrados através de um processo sempre assente no mentoring, focado na formação permanente e desenvolvimento pessoal. É com orgulho que afirma que 14 desses jovens ainda se mantêm no Grupo, alguns deles com evolução acentuada. Fátima Borges defendeu que foi o processo de mentoring e o match entre os séniores e os jovens que levou à retenção desses 14 jovens. Considerou ainda que as organizações são as responsáveis por fazer emergir o talento dentro das mesmas, sublinhando que o setor da água é um dos contemplados com profissionais talentosos.

Também da Águas da Portugal, participou Rui Mendes da Costa, Diretor Corporativo de Recursos Humanos, que começou por defender que todas as pessoas têm talento, e que embora possa ser em graus diferentes, muitas das vezes o que acontece é que não há a oportunidade de o expor e, com isso, hipóteses de este emergir. Frisou igualmente que o talento não tem idade. Para além da componente inata que confere talento, Rui Costa argumentou que o sucesso depende de cada um, porque a performance é que é o potencial, dependendo muito do esforço. Há que reagir aos erros e às dificuldades, sendo o feedback uma das melhores ferramentas para tal, porque “não se escolhe o que nos acontece, mas pode-se escolher o que fazer com o que nos acontece”. Realçando a importância da motivação pessoal, Rui Costa reiterou também a necessidade de falar tanto em talento como em desalento, pois este último pode ter efeitos indesejáveis, principalmente em realidades como a que se vive atualmente. E não se muda efetivamente uma organização, há é que atuar ao nível das pessoas. Ao contextualizar o próximo Programa Wave da AdP, baseado na promoção do desenvolvimento do colaborador, bem como na motivação e criação de laços psicológicos entre a organização e o colaborador, o especialista afirmou que, para se manter sustentável no tempo, a organização tem de acompanhar a velocidade da mudança. E aqui, a humanização da organização é fulcral. Rui Costa apontou ainda a questão salarial como uma componente muito relevante.

Rui Godinho, Presidente da APDA, enalteceu a pertinência do tema abordado, nomeadamente num setor que lida com um recurso vital, ainda para mais no contexto de pandemia. Considerando as experiências explanadas na sessão como assertivas, acrescentou que "o valor que a mesma trouxe é incalculável, só superado pelo valor intrínseco da água".