DISPONÍVEL GRAVAÇÃO DE “GESTÃO DE ATIVOS E OS DESAFIOS DESTA DÉCADA - SETOR DA ÁGUA”

22/10/2020

Os obstáculos ao setor da água são uma realidade cada vez mais premente, tendo a Gestão de Ativos um papel fundamental na estratégia para os minimizar. Esta foi a vertente explorada no segundo de três webinars dedicados à “Gestão de Ativos e os Desafios desta Década”. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Moderado por Ana Soares, membro da Comissão Especializada de Gestão de Ativos da APDA e Sector Lead - Water da Esri Portugal, o evento contou com as intervenções de António Carmona Rodrigues, Professor Auxiliar da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Pedro Vieira, Diretor de Sistemas de Informação e Inovação da Águas do Porto, Jaime Gabriel Silva, Assessor da Águas do Douro e Paiva, e Sérgio Teixeira Coelho, CEO e Co-fundador da Baseform.

As alterações climáticas são apontadas como um problema do presente e do futuro, designadamente no que à disponibilidade de recursos hídricos diz respeito. E como é que a Gestão de Ativos pode ajudar na adaptação à mudança do clima? De acordo com Carmona Rodrigues as alterações climáticas podem afetar, a curto e médio prazo, os valores dos ativos, como por exemplo, barragens, diques de proteção ou mesmo as redes de saneamento. Seja a nível funcional, seja a nível económico, o impacto sobre o ativo é negativo, razão pela qual deve ser adotada uma estratégia de gestão mais proativa, baseada na resiliência, flexibilidade e diversidade. À medida que as consequências das mudanças climáticas se tornam mais frequentes, mais severas e mais dispendiosas, essa estratégia deve ser, por isso, antecipada, mas com objetivos mensuráveis perante um contexto de incerteza. Procurar novas origens de água (através da reutilização e dessalinização) e novas formas de energia, bem como privilegiar investimentos que podem mitigar ou adaptar-se a consequências das alterações climáticas, como as cheias e secas, subida do nível do mar e impacto na qualidade da água são elementos a ter em conta. Ainda no percurso da valorização do ativo, e para uma resposta mais capaz e qualitativa, há que existir, em simultâneo, gestão da informação, planeamento financeiro e coordenação.

Para partilhar a abordagem tecnológica na Gestão de Ativos na Águas do Porto, esteve Pedro Vieira, que defendeu que as soluções digitais são apenas mais uma ferramenta de suporte na tomada de decisão. De acordo com o Diretor de Sistemas de Informação e Inovação, a Gestão de Ativos assume um papel de relevância numa entidade da dimensão da Águas do Porto, sendo que ações são sempre muito condicionadas pela forma como a infraestrutura responde e pelo respetivo histórico. Neste âmbito, referiu o projeto “Porto Gravítico”, que veio revolucionar em 2006 a forma de distribuição de água no município, tendo em conta o estado e diversidade dos ativos existentes. Proporcionou igualmente uma visão genérica sobre as soluções implementadas pela empresa ao nível de gestão de dados, integração de soluções tecnológicas e desenvolvimento de interfaces para a gestão de informação. Entre as ferramentas desenvolvidas mais recentemente, apresentou duas direcionadas para a parte operacional, cujo reflexo na Gestão de Ativos é indiscutível: H2meter, uma solução de Inteligência Artificial a nível do planeamento e distribuição de trabalho, com a função de diferenciar rotas distribuição de ativos de água; e a H2leaks, uma ferramenta de Machine Learning, que faz previsões sobre o estado da rede, designadamente a ocorrência de roturas em condutas de água. Apologista de que Gestão de Ativos é um tema transversal e basilar, Pedro Vieira afirma que os critérios não são exclusivamente técnicos, todavia, a informação recolhida através da tecnologia, para além de ajudar a integrar a informação, gera o conhecimento fundamental para a tomada de decisão de gestão no Ciclo Urbano da Água.

Jaime Gabriel Silva começou por explanar que a Gestão de Ativos visa criar valor através da tomada das melhores decisões com base num equilíbrio entre risco, custo e desempenho, apoiado no acompanhamento de todo o ciclo de vida desses ativos. Nesse contexto, a Gestão de Ativos pode abarcar várias opções: substituir ou não o ativo, seja por obsolescência ou antecipação; aumentar a vida útil através do investimento (reabilitação significativa) ou mantê-lo mesmo que isso implique mais gastos de manutenção; reduzir gastos operacionais através da alteração de processos ou não alterar, planeando a substituição posterior devido ao risco que possa existir. Todavia, em todas as opções para criar valor para a empresa e maximizar os recursos, é determinante a disponibilidade financeira no curto, médio e longo prazos. O processo até este ponto é denominado por ciclo da otimização. O orador escolheu os efeitos decorrentes da evolução dos custos energéticos e das alterações climáticas para elucidar o impacto do crescimento destas duas situações na criação de valor da empresa através da gestão de ativos. Ao demonstrar de que forma é que atuam sobre o setor da água, Jaime Silva sublinhou ser necessária uma maior rapidez na avaliação e criação de cenários, porque a necessidade de adaptação é mais frequente devido à imprevisibilidade e evolução acelerada dos dois fenómenos. Esse processo é também um ciclo, que procura responder continuadamente às alterações decorrentes da evolução energética e das alterações climáticas. Só que essas alterações tenderão a ser mais frequentes nos próximos anos. Para que as Entidades Gestoras consigam acompanhar essa evolução mais acentuada e antecipar riscos, é imprescindível articular o ciclo da otimização com o ciclo da adaptação dos processos operacionais na organização, de forma a responder aos impactos da evolução dos mercados, demanda, meio ambiente, normas, etc. Foi igualmente destacado o papel da tecnologia e o reforço do entrosamento da Gestão de Ativos com as áreas de tratamento de água de abastecimento e águas residuais.

Sérgio Teixeira Coelho trouxe também uma visão tecnológica, apoiando-se na experiência da Baseform em aplicações de gestão patrimonial de infraestruturas. Debruçando-se sobre a importância do “porquê gerir a infraestrutura?”, remeteu para o seu rápido envelhecimento, a concentração das populações e a crescente pressão sobre os recursos energéticos e hídricos para fundamentar a necessidade premente de muito maior adaptabilidade. Com dados e comunicação cada vez mais acessíveis, há uma democratização da tecnologia em benefício das Entidades Gestoras, mas igualmente uma crescente visibilidade e exigência societal. O CEO e Co-fundador da Baseform apresentou dois casos de gestão patrimonial apoiada em dados operacionais - o primeiro ilustrando como a previsão de taxas de falha e vidas úteis de condutas, baseada nos dados de Ordens de Trabalho da empresa, permite poupanças e/ou aumentos de eficiência concretos na canalização dos investimentos; o segundo demonstrando como o tratamento simultâneo de analíticas de afluências indevidas, previsão de falhas e previsão de condição estrutural traz eficácia significativa à gestão de prioridades em infraestruturas de saneamento -  para explicar contextos em que a tecnologia, enquadrada por planeamento adequado, permite maximizar a eficiência e eficácia do investimento operacional e patrimonial, no curto e longo prazos. Sobrepõe-se aqui saber trabalhar com os dados existentes (o que é possível fazer com o quê, e que novos dados é mais premente adquirir, para que decisões) e ter bem claros os objetivos a atingir, evitando adiar ações para um futuro ficcional com ‘dados ideais’. A evolução tecnológica não traz soluções mágicas, mas permite avançar com eficácia em função de um planeamento sólido, com objetivos e métricas claras, e que permita avançar no quotidiano aproveitando todas as oportunidades disponíveis.

A encerrar a sessão, que contou com exposições complementares, esteve Rui Godinho, Presidente da APDA, que perante a existência de um aprofundamento crescente da incerteza em que se vive, sublinha ser essencial contribuir para uma proteção de todo o Ciclo Urbano da Água, na qual o reforço da resiliência da Gestão de Ativos se demonstra essencial.