ASSISTA À SESSÃO GRAVADA DO WEBINAR “A GESTÃO DO ABASTECIMENTO DE ÁGUA EM TEMPO DE PANDEMIA”

30/10/2020

O webinar promovido pela Comissão Especializada de Sistemas de Distribuição de Água da APDA focou quatro temas: Evolução das roturas e avarias na rede de distribuição; Perceção e evolução das perdas de água e da água não faturada; Leituras dos contadores domiciliários em campo versus telemetria domiciliária, sistemas de monitorização e controlo remoto; e Evolução dos consumos domésticos e não-domésticos nas Entidades Gestoras mais urbanas e mais rurais.  De destacar a partilha de experiências de um conjunto vasto e multifacetado de Entidades Gestoras do território nacional, nomeadamente Norte, Sul e Ilhas. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

No primeiro painel, sobre “Evolução das roturas e avarias na rede de distribuição”, sublinha-se que o desenvolvimento do número total de roturas e avarias não terá sido significativa o suficiente para poder influenciar os valores anuais. Estiveram como representantes das respetivas Entidades Gestoras Abel Luís, da EPAL, Guilherme Santos, da Águas do Norte, Rodrigo Duarte, da Águas de Cascais, e Maria José Neto, dos SIMAR de Loures e Odivelas.

Abel Luís salientou três aspetos relativos à cidade de Lisboa: a redução de intervenções que se verificou na fase de confinamento já foi compensado nos últimos meses; os colaboradores, bem como os parceiros estiveram sempre prontos para o necessário; a fase foi aproveitada para reforçar a execução de alguns investimentos em obras de manutenção importantes, bem como para realizar algumas obras pendentes em sítios com circulação viária complicada no contexto normal. Colaboração é a palavra-chave para definir o comportamento positivo da EPAL perante a fase da pandemia.

Guilherme Santos revelou que, durante o confinamento, foi registado um menor reporte de roturas, porque além da população ter permanecido em casa e não fazer essa comunicação, as equipas também foram reduzidas, havendo menos vigilância na rede. A prioridade da Águas do Norte foi garantir e assegurar o abastecimento de água, reparando apenas as roturas mais críticas. Com o desconfinamento, o nível de roturas começou a normalizar, mas, na verdade, o que aumentou não foram os episódios de rotura, mas antes a eficiência em repará-las. Guilherme Santos conclui que, embora não significativamente, a pandemia acabou por ter consequências negativas, porque ainda não existe uma monitorização a 100% a nível de caudais e de pressões. A partir do momento em que esse objetivo for alcançado, a capacidade de resposta da Águas do Norte vai melhorar exponencialmente.

Rodrigo Duarte afirmou que, após a Águas de Cascais ter colocado em prática o plano de contingência, houve necessidade de reduzir equipas e reestruturar outras - um grande constrangimento, porque tanto o abastecimento como a recolha do efluente tinham de ser assegurados, ao mesmo tempo que tinha de ser garantido o acompanhamento normal da rede. O perfil de consumo doméstico também foi alterado significativamente, já que em vez de picos de consumo foram registados consumos contínuos durante o dia. Sendo Cascais uma zona muito turística, registou-se também a descida de consumo de cliente não doméstico. Todavia, a nível de roturas, a capacidade de resposta não foi afetada. Mas Rodrigo Duarte defendeu que a alteração do perfil do consumidor tem um impacto significativo da rede.

No caso dos SIMAR de Loures e Odivelas, Maria José Neto explicou que todos os trabalhos de manutenção programada foram suspensos e as equipas de manutenção de emergência reduzidas em 50%, rodando semanalmente. Contudo, o aumento de roturas não foi significativo, tendo sido possível dar resposta às situações, porque também se conseguiu manter as equipas, tendo sido registado, inclusive, uma ligeira redução das intervenções. Perante o aumento das roturas em ramais, por menos reporte e visualização, também as roturas de abastecimento ganharam prioridade. Em suma, Maria José Neto considerou o período com resultados positivos, sem que os padrões de funcionamento dos SIMAR de Loures e Odivelas tivessem sido notados pelos clientes, o que foi corroborado pelo não aumento das reclamações. O esforço dos colaboradores também foi sublinhado.

Paulo Nunes da INDAQUA, André Duarte, dos SMAS de Sintra, João Santos, da EMAS de Beja, e Vítor Jesus, da ARM - Águas e Resíduos da Madeira, centraram-se na “Perceção e Evolução das Perdas de Água e da Água Não Faturada”, onde foi concluído de que em muitas Entidades Gestoras as perdas de água não sofreram impactos significativos, quer positivos, quer negativos.

Nesta sequência, Paulo Nunes observou que, para a INDAQUA, o estado de confinamento não afetou a gestão e os resultados das perdas de água. A explicação deve-se ao facto de a Entidade Gestora contar com uma estrutura e um conjunto de processos operacionais maduros e uniformizados entre as respetivas concessionárias, além de um bom sistema de gestão que, em conjunto, conferem uma elevada resiliência a situações adversas como o caso da pandemia. Desta forma, os trabalhos de pesquisa de fugas foram ininterruptos, bem como os de reparação e pesquisa de fugas.

Já André Duarte reparou que o confinamento veio desacelerar o trabalho de investimento que tem sido feito nos SMAS de Sintra em termos de redução de perdas, cujo objetivo para 2020 era ficar entre os 17% e 18%. Isto porque houve menos trabalho de campo, mais trabalho em backoffice e, embora as equipas se tivessem mantido, a interação entre as mesmas foi afetada. O único serviço suspenso foram as leituras domésticas, devido à exigência de interação com os clientes, e, apesar de se registar um decréscimo de intervenções na rede, foi reduzido o tempo entre a deteção da fuga e o fecho da água nas fugas de maior expressão, uma vez que as de menor dimensão só foram contornadas posteriormente. André Duarte destaca que as equipas responderam de uma forma incansável e exemplar, mas que a pandemia afetou de alguma forma a performance dos SMAS de Sintra, o que tem repercussão no balanço da Entidade Gestora.

Para a EMAS de Beja, 2020 também de se antevia como um ano especial, cujo objetivo era ficar com o valor de água não faturada abaixo dos 20%. João Santos explica que a pandemia e o período de confinamento trouxeram muitas incertezas, tendo levado a Entidade Gestora a fazer muitas leituras por estimativa, incluindo as de água adquirida em alta. A gestão e o controlo dos sistemas de abastecimento foram realizados em teletrabalho, e, após 15 dias de confinamento, a equipa de deteção de fugas, apesar de reduzida, retomou o trabalho diário no terreno. Foi também registada uma diminuição do tempo de resposta e de reparação de roturas, incluindo as fugas não visíveis, passando-se de uma situação de prevenção para uma de reação. Porque o foco passou a ser a reparação das roturas, o indicador de água foi beneficiado. Entretanto, no verão já foi possível começar a fazer leituras reais. Relativamente aos consumos, houve uma redução dos grandes clientes versus o aumento significativo do doméstico. João Santos afirmou que se o ano terminasse neste momento, o objetivo da EMAS de Beja seria atingido, contudo o contexto atual continua a ser de incerteza.

Vítor Jesus, da ARM - Águas e Resíduos da Madeira, trouxe uma perspetiva um pouco diferente, até porque o arquipélago em causa foi consideravelmente menos afetado pela pandemia do que o Continente. Começou então por explicar que a dispersão da população, orografia acentuada da ilha, a rede envelhecida e extensa, em função da área geográfica com muitos patamares de pressão e elevado número de ramais face aos contratos ativos, são argumentos que justificam pertinentemente o facto de o número de água faturada que a Entidade Gestora regista seja tão elevado. É perante esta realidade que estão em curso diversos investimentos, de forma a dotar a ARM de capacidade de intervenção, bem com de dados. Embora seja difícil de atuar devido a todos os constrangimentos, Vítor Jesus sublinha que se tem conseguido dar continuidade aos trabalhos, muito também com o esforço dos operacionais, o que tem contribuído para a tendência descendente da água não faturada.

No tema "Leituras dos contadores domiciliários em campo versus telemetria domiciliária, sistemas de monitorização e controlo remoto" foram expostas as vantagens, desafios e lições a reter. As intervenções foram protagonizadas por Flávio Oliveira, da Águas do Porto, Nuno Fontes, dos SIMAS de Oeiras e Amadora, Hilário Ribeiro, da ITRON, e Pedro Pascoal, da Infraquinta. Ficou aqui evidente que a pandemia se transformou num argumento para alavancar a massificação dos sistemas de telemetria.

Flávio Oliveira referiu que a Águas do Porto teve dois focos essenciais: a fiabilidade e consolidação da faturação e a monitorização e controlo remoto da rede pública. Durante o confinamento inicial, a leitura foi otimizada com duas viaturas drive-by, sendo certo que as leituras presenciais estiveram suspensas por uma questão cívica. Relativamente à telemetria, a Águas do Porto desenvolveu um algoritmo interno que faz a previsão da evolução de consumos. No que diz respeito à monitorização, foi desenvolvido o projeto Setorização Mais, que vai permitir praticamente a duplicação das zonas de monitorização e de controlo instaladas, com um incremento de mais 80 postos de monitorização criteriosamente espalhados pela rede. Flávio Oliveira aponta que, se há conclusões que se podem retirar dos últimos tempos vividos é de que as aplicações remotas de monitorização são um grande mais-valia na gestão do sistema quer através da telemetria domiciliária, quer através da telemetria de gestão de rede, porque são os olhos e ouvidos no terreno para se poder atuar. Foi também salientado o desempenho dos colaboradores da Águas do Porto.

Nuno Fontes salientou que o SIMAS de Oeiras e Amadora ainda se encontram numa fase embrionária no que diz respeito à telemetria e o projeto piloto que têm em curso visa aferir as dificuldades que esta solução apresenta, desde a implementação até à exploração. Durante o confinamento foi suspensa a leitura de contadores interiores, mas foram mantidas as leituras agendadas. Nuno Fontes defendeu que, com a telemetria será possível manter o funcionamento normal da Entidade Gestora perante situações limitativas como a da pandemia, sendo certo que o SIMAS de Oeiras e Amadora já teria massificado essa solução não fosse o avultado investimento. Além disso, a telemetria não tem benefícios apenas a nível de faturação, mas também de angariação de dados para fazer as devidas conclusões.

Hilário Ribeiro fez um enquadramento do confinamento na ITRON, revelando que houve um impacto nas atividades comerciais, sendo que 70% dos colaboradores foram enviados para casa e outros 30% permaneceram a trabalhar com as devidas regras de segurança. Apologista de que a água vai ser um recurso escasso no futuro, Hilário Ribeiro considera que a eficiência, a sustentabilidade e a melhoria da qualidade de serviço tornam-se cruciais. Entende que a telemetria é uma mais-valia que contribui para uma gestão mais rigorosa e eficaz da atividade de uma Entidade Gestora perante situações como a vivida atualmente, sendo certo que a informação que gera é transversal a todos os departamentos das organizações.

No caso da Infraquinta, Pedro Pascoal afirmou que toda a análise de perdas de água e de monitorização decorreu dentro da normalidade, através da implementação do teletrabalho e do despoletar de ordens de serviço quando necessário. Estas medidas permitiram um fluxo contínuo de faturação (não por estimativa) e uma gestão à distância do parque de contadores. Assim, Pedro Pascoal conclui que a pandemia não teve um impacto nem na atividade diária nem na sustentabilidade financeira da Infraquinta.

No tema “Evolução dos consumos Domésticos e Não-domésticos nas Entidades Gestoras mais urbanas e mais rurais as grandes alterações nas Entidades Gestoras mais urbanas e mais rurais” intervieram Ana Paula Barros, Águas de Gondomar, Flávio Oliveira, Águas do Porto, Luís Ghira, da Águas de Santo André, e Joana Frada, da INDAQUA. A ideia geral a reter é a de que as Entidades Gestoras com uma maior percentagem de receitas derivadas de consumos não-domésticos vão ser as mais afetadas financeiramente.  

Ana Paula Barros observou que a Águas de Gondomar, durante o confinamento, teve um aumento significativo do consumo doméstico durante o dia, com registos de utilização mais contínuos e não tanto por picos. No entanto, na fase de desconfinamento, esse consumo diário continua a ser acentuado, o que pode ser explicado pelo facto de haver ainda uma percentagem relevante da população em teletrabalho e pelo facto das pessoas continuarem a resguardar-se mais em casa, evitando os sítios públicos. No caso do consumo não-doméstico, o quadro é outro. Embora se resuma a poucas categorias de serviços e represente uma pequena parcela da atividade da Águas de Gondomar, este tipo de consumo decresceu significativamente. Entretanto, Ana Paula Barros resume que, atualmente, e enquanto o consumo doméstico se mantém elevado, o não-doméstico já começa a convergir para uma situação mais normalizada.

Já no caso da Águas do Porto, Flávio Oliveira concluiu que os consumidores não-domérticos representam uma elevada percentagem da receita da Entidade Gestora, até porque a Invicta é uma cidade turística e com elevada densidade populacional. O consumo neste setor reduziu drasticamente e a realidade é que muitos dos serviços que a cidade oferece ainda não retomaram a atividade normal. Por outro lado, a gama doméstica aumentou, não só devido ao teletrabalho como ao resguardo das pessoas. De acordo com Flávio Oliveira, e perante o facto de que a pandemia persiste, a adaptação e a continuação da estratégia são essenciais, por forma a não descurar medidas já implementadas e colocar em causa o trabalho já realizado.

Joana Frada, também da INDAQUA, revelou que o consumo doméstico aumentou com mais veemência nas zonas mais urbanas e com maior densidade populacional, um registo que só foi mais visível nas zonas meio urbanas e rurais no tempo de férias. Já o consumo não doméstico teve um decréscimo muito acentuado nas zonas mais urbanas, onde obviamente, existe maior oferta de serviços que foram obrigados a fechar. A nível autárquico a redução de consumo foi mais expressivo nas zonas mediamente urbanas. Joana Frada sublinhou que as medidas adotadas em contexto de pandemia fizerem e vão continuar a fazer a diferença neste futuro incerto. Alguns exemplos dessas medidas foram: ajustes às leituras, logo menos reclamações; o rácio de leituras planeadas foi mantido; cumprimento e rigor em números faturados; reforço do atendimento telefónico; chat online; substituição de contadores que estavam no exterior; o atendimento presencial nunca parou, tendo sido realizado desde o início com as devidas regras de segurança; após o período crítico, os operacionais conseguiram fazer diligências a habitações de difícil leitura porque as pessoas não estavam em casa. O facto de a correspondência ser entregue com recursos internos da empresa também foi salientado, não só porque assegura que os clientes recebem a fatura, como permite haver mais olhos na rua, logo mais reporte de situações.

O final da sessão foi marcado pela referência ao mote da Organização das Nações Unidas “Não deixar ninguém para trás” nos serviços de água e de saneamento e também pela nota de que a falha de uma única Entidade Gestora pode afetar a imagem de todo o setor.