DISPONÍVEL SESSÃO GRAVADA DO WEBINAR “A GESTÃO DE ATIVOS E OS DESAFIOS DESTA DÉCADA - OUTROS SETORES”

11/11/2020

A perspetiva da Gestão de Ativos em outros setores de atividade marcou o último de uma série de três webinars promovida pela Comissão Especializada da Gestão de Ativos (CEGA) da APDA. Moderada por Carlos Mariano, membro da CEGA e Diretor Geral da AQUASIS, a sessão contou com as intervenções de Rui Coutinho, Diretor de Gestão de Ativos da Infraestruturas de Portugal, Jorge Gomes, Diretor Adjunto na Direção de Serviço aos Ativos de Alta Tensão da EDP, Sónia Santos Santiago, Coordenadora do Projeto Sistema de Gestão de Ativos da Brisa, e Maria João Bonnet, Coordenadora do Gabinete dos Sistemas de Gestão Integrados da Cascais Ambiente. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Na perspetiva da Infraestruturas de Portugal, Rui Coutinho defendeu que a Gestão de Ativos serve para destruir silos e contribuir para criar uma atitude colaborativa na organização, sendo mais um instrumento de alinhamento da mesma em torno de um objetivo comum. Após apresentação dos fatores externos que exigem mais atenção estratégica da empresa e que a Gestão de Ativos tem de endereçar, revelou que a Infraestruturas de Portugal desenvolveu um  Programa de Transformação em torno de três eixos internos: pessoas, através de uma cultura de colaboração organizacional; sistemas de informação, de forma a simplificar a vida dos utilizadores e otimizar o trabalho dos profissionais; e processos, aumentando a integração dos mesmos, de forma a evitar redundâncias e deficiências que existam. Ao explicar que a Infraestruturas de Portugal concretiza as práticas da Gestão de Ativos com base no conhecimento dos ativos que tem, Rui Coutinho sublinhou a essencialidade de se perspetivar os impactos de longo prazo das decisões tomadas no presente. Nesse sentido, os investimentos de mobilidade têm de ser garantidos com complementaridade de forma equilibrada para a função, com equidade de tratamento entre os vários atores do mercado, públicos ou privados, ao longo de todo território nacional, e participar nos desígnios de coesão que a Infraestruturas de Portugal pretende. É defendido igualmente que não há mobilidades sustentáveis sem gestão eficiente de infraestruturas, sendo fundamental a ligação entre a gestão estratégica e a gestão de ativos para criar valor. Rui Coutinho sublinhou também a importância da qualidade das infraestruturas para o desenvolvimento económico e sustentável.

Jorge Gomes, a representar a EDP e consequentemente o setor da eletricidade, começou por uma alusão geral aos problemas que o mundo enfrenta, entre os quais, a destruição da cama de ozono, as alterações climáticas, a contaminação de solos e oceanos e o elevado consumo de materiais descartáveis, que geram resíduos não biodegradáveis e difíceis de tratar devidamente. Nesta perspetiva, e caso seja possível contornar os problemas mais iminentes para que as gerações futuras tenham um planeta mais verde e sustentável, o segredo passa pela transição energética, cuja palavra-chave é a descarbonização, possível através de energias renováveis como a solar, eólica e hídrica. Só assim vai ser possível viver em equilíbrio com a natureza. Tal como as outras utilities, a eletricidade está a atravessar um período de transformação motivado por diversos fatores externos e internos, sendo impreterível que o setor energético mude nesta década. Sob o elevado escrutínio do regulador e da sociedade, defendeu que o setor energético deve considerar uma visão integrada dos ativos, tendo por base o ciclo global da vida dos mesmos em alinhamento com as normas da família ISO 55000.  Essa transformação passa por construir redes inteligentes, de forma a gerar dados para poderem ser trabalhados e, posteriormente, servirem de base para a tomada de decisão suportada. Também a digitalização dos processos precisa de estar presente ao longo do ciclo, com foco na eficiência, flexibilidade e controlo dos processos. Ter em conta igualmente a Economia Circular, no sentido de prolongar a vida dos ativos através da otimização dos planos de manutenção, porque apesar de antigos, há ativos que podem explorados. Mas também há que avaliar se essa manutenção é pertinente, porque pode ser o caso de não se prever mais atividade do ativo, incorrendo a custos desnecessários. Desta feita, Jorge Gomes é apologista da tomada de decisão com base no equilíbrio entre desempenho, custo e riscos. Assim, apresentou algumas das estratégias no âmbito da EDP: construir redes inteligentes, mais flexíveis e resilientes que permitam acomodar as outras fontes de energia; assegurar o bom desempenho e a disponibilidade das redes elétricas, permitindo o acesso às mesmas por parte dos consumidores, produtores e “prossumers” (consumidores e produtores em simultâneo); construir uma rede fiável de carregamento dos veículos elétricos; e otimizar os investimentos. Revelou, por isso, que as organizações têm de ter uma visão 360 o sobre a gestão de ativos. Para tal, há que obter um conhecimento antecipado sobre o comportamento do ativo ao longo do tempo, apoiar a tomada de decisão e otimizar os planos de manutenção e investimento da empresa. É igualmente essencial adotar ferramentas digitais para gerar dados, olhar para os mesmos e saber interpretá-los, alinhar a decisão final com responsabilidade social e ética, bem como envolver toda a organização no processo.

Sónia Santos Santiago, pela Brisa, setor das infraestruturas rodoviárias, fez um enquadramento de como a empresa pretende ser uma referência na gestão eficiente e integrada - maximizando o valor dos ativos durante o respetivo ciclo de vida através da garantia da disponibilidade, da otimização do desempenho e do custo, bem como da minimização de riscos. O sistema de Gestão de Ativos na Brisa assenta em três pilares: visão única dos ativos; decisões ponderadas por rentabilidade e risco; e gestão end-to-end dos ativos. Para um melhor sistema integrado, explicou que os ativos foram divididos em três classes: pontuais, lineares (por exemplo pavimentos, guardas de segurança, etc.) e complexos (que têm um conjunto de componentes, como por exemplo as obras de arte). Entretanto, a organização, os processos e os sistemas de informação são apontados como as bases para o projeto de transformação que a Brisa iniciou em 2016. Desde então, o caminho passou pela definição de um modelo global de políticas e regras dos sistemas de Gestão de Ativos, pelo desenvolvimento de macroprocessos e arquitetura high level dos sistemas de informação, criação de cadastro de ativos referenciados e determinadas estratégias de inventariação, manutenção, avaliação de risco e performance. Todavia, e estando já em curso a implementação dos sistemas integrados de Gestão de Ativos na empresa, Sónia Santos Santiago defendeu que o percurso ainda se antevê longo.

Após um enquadramento geral da Cascais Ambiente, Maria João Bonnet revelou que esta empresa municipal, que atua na recolha de resíduos, limpeza urbana, gestão espaços verdes urbanos, gestão estrutura ecológica e sensibilização ambiental, teve a primeira certificação de Gestão de Ativos em 2017, que foi, entretanto, estendida a todos os serviços que executa. Como principais desafios que a Cascais Ambiente enfrenta, Maria João Bonnet aponta as alterações de âmbito, regulamentar e acionista (mudanças de paradigma, economia circular, objetivos de recolha, novos serviços); as alterações ambientais (imprevisibilidade de serviços, interrupção de serviços, sustentabilidade ambiental, combustíveis fósseis, descarbonização); alterações de tecnologia (Big Data Analysis, Inteligência Artificial, eficácia, eficiência, segurança, comunicação/informação); e as alterações comportamentais (novas exigências, mobilização  alteração de consumo; mais intervenção; mais comunicação; mais expectativas). Para lidar com o panorama foi criado o Smart Waste Management (SWM), um programa de gestão inteligente dos resíduos com base em quatro vertentes: tecnologia de ponta; ajustes operacionais; capital intelectual das equipas e espírito participativo da população cascalense. O programa, que resultou de um investimento de 550 mil euros, já permitiu reduzir 180 mil quilómetros de distância percorrida pelos camiões de recolha, emitir menos 350 toneladas de CO2, traduzindo-se, ainda, numa poupança anual para o concelho de 600 mil euros por ano. Entretanto, o Smart Urban Cleaning surge como uma evolução do SWM, com a criação de uma brigada de intervenção ambiental, que tem como finalidades a fiscalização de deposição e abandono de resíduos indevidos, a sensibilização, de forma a reduzir focos problemáticos, melhorar o comportamento ambiental e cidadania, bem como o alargamento da instalação de papeleiras inteligentes, que já demonstrou resultados significativamente positivos. Maria João Bonnet referenciou também a criação da plataforma tecnológica CABI - Cascais Ambiente Business Intelligent, que visa a gestão do elevado número de dados gerados e cujo futuro passa por integrar todos os serviços executados pela Cascais Ambiente. Disponibilização, sensibilização, informação e fiscalização definem a estratégia da Gestão de Ativos da empresa.

Após debate de ideias e respostas a questões levantadas pelos participantes, Rui Godinho, Presidente da APDA, encerrou a sessão, agradecendo a partilha de experiências que, apesar de diversas, elevaram a importância da Gestão de Ativos como ferramenta essencial para a otimização de todas as organizações. Sublinhou também a integração e a cultura organizacional para o sucesso da mesma.