DISPONÍVEL SESSÃO GRAVADA DE "A PANDEMIA COVID-19 E O ABASTECIMENTO DE ÁGUA”

27/11/2020

A resiliência dos serviços do setor marcou o webinar "A pandemia COVID19 e o abastecimento de água", realizado pela Comissão Especializada de Qualidade da Água (CEQA) da APDA. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Paulo Nico, Diretor do Departamento de Redes de Água, Drenagem e Logística dos SMAS de Almada e também Coordenador da CEQA, foi o moderador da sessão, que contou com as intervenções de Rui Marreiros, Administrador Executivo da EMAS de Beja e Vice-Presidente da APDA, Alexandra Cristóvão, Diretora de Sustentabilidade Empresarial da EPAL, Rui Sancho, Coordenador do Departamento de Operações - Água da Águas do Algarve, e Hugo António, Coordenador do Serviço Municipal de Proteção Civil do Barreiro.

Ao fazer um enquadramento da EurEau - Federação Europeia das Associações Nacionais dos Serviços de Água, da qual é membro da Assembleia Geral, Rui Marreiros procedeu a uma visão global do comportamento das Entidades Gestoras europeias na resposta à pandemia de COVID-19. Representando 29 países, cerca de 70 mil Entidades Gestoras e meio milhão de profissionais do setor da Água, a EurEau reagiu de imediato ao contexto de emergência vivido na sociedade em geral. Para tal, criou uma plataforma específica para troca de informações entre países, o que permitiu, numa fase embrionária, agilizar decisões essenciais para o setor e, ao longo do tempo, fazer com que este respondesse de uma forma eficaz. Neste âmbito, a Assembleia Geral da EurEau reunia uma vez por semana, fazendo a comparação e partilha de dados sobre o estado de cada país a nível do abastecimento de água, tratamento de águas residuais e do impacto financeiro nas operações das Entidades Gestoras. Em simultâneo, foi delineado um trabalho em rede com os Comités Especializados da EurEau (EU1 - Água para Consumo Humano, EU2 - Águas Residuais, e EU3 - Economia e Legislação), que contam com a contribuição de elementos de cariz técnico dos vários países, entre os quais membros das Comissões Especializadas da APDA, que, desta forma, fizeram a ponte entre as organizações. Considerando a análise semanal realizada, o balanço tem demonstrado que, tal como se verificou em Portugal, o setor da água no quadro europeu respondeu de uma forma eficaz, não se verificando anomalias significativas nos serviços, para além das já existentes antes da pandemia, um cenário vivido quer em Entidades de maior ou menor dimensão. Rui Marreiros sublinhou a implementação da digitalização de serviços, essencial para a interação neste contexto com o cliente, que, tendo sido acelerada pela pandemia, permitiu dar um salto tecnológico e colocar em curso projetos que até então se mantinham em stand-by. Foi igualmente realçado o estímulo para a realização de estudos em cada país para identificar elementos ou mapas de risco que comprometessem a segurança do setor. A nível global foi sentido um aumento dos consumos domésticos, em virtude do confinamento, em contraste com a descida abrupta dos consumos empresariais e dos setores da indústria, restauração, turismo e cultura. Aqui, de acordo com Rui Marreiros, a maior dificuldade sentida foi a questão das diferenças tarifárias que, com a verificada alteração de consumos, podem perturbar aquilo que era o plano de negócios, designadamente o nível de receita.  Em junho, o ponto de situação dos vários países indicava uma redução total dos volumes na ordem dos 23% e uma dificuldade de cobrança de 19%, devido às questões de impacto social, como a suspensão de cortes de serviços, que veio agravar estas situações. A EurEau também preparou um programa de recuperação económica, que se baseia na preocupação da sustentabilidade das Entidades Gestoras e dos riscos acrescidos, como, por exemplo, o cumprimento dos investimentos, que se vai agravar com o prolongamento da pandemia. Todavia, está a ser analisada a participação dos respetivos Governos para compensar as dificuldades das Entidades Gestoras, nomeadamente através do direcionamento de Fundos Europeus. Rui Marreiros caracteriza o setor da água como maduro e robusto, cumprindo o objetivo, mas invisível, sendo, por isso, fundamental obter o devido reconhecimento, porque faz parte dos serviços essenciais de primeira linha.

Alexandra Cristóvão explanou como a EPAL e a AdVT atuaram durante esta pandemia, elevando, desde logo, a resiliência das equipas e a capacidade de resposta das Entidades Gestoras do setor que, sendo discreto, é pouco notado. Para o cumprimento da missão de ambas as empresas, foi essencial o programa de gestão de crises que já lhes é inerente, sendo que crises anteriores foram essenciais para saber lidar com a da pandemia. Sublinhando o envolvimento e empoderamento da Administração, Alexandra Cristóvão revelou que, desde o primeiro instante, houve um alinhamento a nível da organização com divulgação de orientações firmes, claras e sempre em concordância com as normas da Direção-Geral de Saúde e da ERSAR. Apesar do bom desempenho, houve alguns desafios, como a falta de EPI logo de início, que foi colmatada através de contactos e parcerias, e garantir a segurança das equipas que permaneceram no terreno, que era primordial, respeitando as peculiaridades de cada uma delas. Também a falta de recursos humanos, sentida ao longo dos tempos, emergiu, relembrando a necessidade de suprir esta carência. De sublinhar a capacidade dos Sistemas de Informação, que garantiram a capacitação imediata do trabalho remoto em segurança, refletindo o trabalho prévio realizado neste âmbito. A constante análise de informação e divulgação cuidada criou um ambiente transparente e de segurança para o universo das empresas e dos consumidores. Alexandra Cristóvão enalteceu também a rede de contactos com os serviços de segurança pública, de saúde e com outras Entidades Gestoras que contribui para uma partilha de informação, dificuldades e soluções que conduziu ao sucesso da resposta. A atuação a nível social, como o encaminhamento de refeições excedentes e a disponibilização de linhas de apoio psicológico aos colaboradores, bem como a comunicação de indicações de uma vida equilibrada, também foi realçado. Em comparação com o confinamento anterior, Alexandra Cristóvão afirmou que todos os espaços da EPAL estão preparados para acolher colaboradores e público, bem como as lojas anteriormente fechadas. Para resumir o desempenho das organizações, Alexandra Cristóvão selecionou a clareza e objetividade da comunicação, que assim transmite confiança e segurança. E para continuar a lidar com a situação remeteu para a liderança, colaboração entre as partes e conhecimento da história.

Rui Sancho, que também integra um grupo de especialistas de segurança da água da International Water Association, debruçou-se sobre a respetiva experiência na taskforce criada no âmbito da COVID-19. Com uma duração prevista de seis meses, esta taskforce vai operar, até março de 2021, perfazendo doze meses de duração. Esta equipa específica tinha reuniões semanais, que no momento são quinzenais, para debater as questões relacionadas com a pandemia. Com base em seis temas - a presença ou persistência do vírus em águas ou nas origens de água para consumo humano; monitorização da presença do vírus nas águas residuais; proteção dos trabalhadores; proteção mais específica dos trabalhadores; análise de risco associada com a manutenção do serviço; e manter compromisso do consumidor para com os serviços –, para cada um deles foram definidos interlocutores. Rui Sancho ficou responsável pela análise de risco associada com a manutenção do serviço, tendo partilhado os resultados até agora obtidos. Confessando que ao início pensou-se que muita coisa iria correr mal, Rui Sancho frisou que a realidade revelou-se bem mais positiva e que as lições aprendidas devem ficar para esta pandemia, bem como para outros eventuais cenários de crise. Um dos aspetos considerados essencial para o sucesso da resposta das Entidades Gestoras a nível mundial foi a criação de uma equipa específica para a pandemia ou gestão de crise, equipa essa envolvendo diversas áreas operacionais essenciais para os inputs do universo da organização. Estas equipas devem ser mantidas até ao final da pandemia, permanecendo ativas para uma gestão pós-crise e balanço dos resultados positivos e negativos, ficando no histórico das operações. De acordo com Rui Sancho, as organizações que não apresentam anomalias, são as que têm Planos de Segurança e Saneamento e Planos de Segurança da Água implementados ou até sistemas ISO9001. Estes sistemas de gestão têm demonstrado contribuir, ao longo do tempo, para o reforço e implementação de planos de emergência, simulação e treino de cenários de emergência, análise de risco, etc. Num curto prazo, as Entidades Gestoras que têm uma avaliação de risco sustentada, em que identificam os processos mais relevantes, demonstram ser as mais resilientes, porque ao triar o crucial, delineiam o que não deve ser abandonado e o que não pode falhar. Também as mais digitalizadas, com um planeamento feito através do suporte informático e simplificação de processos, apresentaram significativamente menos dificuldades. A acrescer ao bom desempenho das Entidades Gestoras, está o desenvolvimento de planos operacionais, distribuição de EPI e práticas de segurança, comunicação interna transparente, bem como promover a interação frequente com as partes interessadas e clientes. Rui Sancho afirmou, entretanto, que está a ser preparado um documento - Business Continuity Plan - que contém um resumo das características que a Entidade Gestora deve ter garantidas em ou assegurar no imediato em casos de crise.

Para uma visão geral do comportamento e reação de todo um município perante a pandemia, interveio Hugo António, que apresentou o caso prático do Barreiro. A operação começou com uma análise de risco, englobando infraestruturas críticas e densidade populacional, adotando o Plano Municipal de Emergência do Barreiro. Decidiu-se avançar com uma reunião com as principais entidades de serviços essenciais, pois a situação exigia a colaboração dos serviços indispensáveis à sociedade. Nesse sentido, e porque era, uma situação peculiar, foi criado, numa escola, um sistema de operações diferenciado com duas vertentes: Proteção Civil e Serviços Essenciais. A operação, que iniciou com o testar todos os profissionais da linha da frente, teve impacto em infraestruturas, supermercados, higiene urbana, providência de locais para descanso para os profissionais de saúde, farmácias, paragem de autocarros, entre outras, não esquecendo a população mais idosa e comunidade sem-abrigo. De acordo com Hugo António, que revela existirem avaliações trimestrais, o balanço é de que a congregação de conhecimento de áreas diversas, a colaboração, a entreajuda, a partilha e o espírito de missão constituíram a chave para a boa performance do município.

A encerrar a sessão esteve Rui Godinho,Presidente da APDA, que reforçou a necessidade de se manter a resiliência transversal, de forma a manter o positivo desempenho no setor.