“MATURIDADE DIGITAL DOS SERVIÇOS DE ÁGUAS EM PORTUGAL E PERSPETIVA INTERNACIONAL” COM GRAVAÇÃO DISPONÍVEL

13/05/2021

O valor da água, a assimetria da maturidade digital no setor e nas respetivas gerações, bem como a avaliação sobre os benefícios da tecnologia no setor e como esta deve ser aplicada para ser rentabilizada, sem descurar os riscos, foram os pontos discutidos por especialistas nacionais e internacionais neste webinar da Comissão Especializada de Inovação (CEI) da APDA. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Apoiado pela Águas do Ribatejo, o evento online contou com a moderação de Pedro Vieira, elemento da CEI e Diretor de Sistemas de Informação e Inovação da Águas do Porto, e com as participações de Rita Ugarelli, Water Europe’s leader of the Vision Leadership Team on Digital Water e Chief Researcher Scientist and Project Manager na SINTEF, Guillermo Pascual, Director de Operaciones, Ingeniería y Transformación Digital de SUEZ España, Nuno Goulartt Medeiros, Diretor de Gestão de Ativos da EPAL e José António Pestana, Administrador Executivo da AQUASIS, bem como de Rui Godinho, Presidente da APDA. Nuno Laranjo, também pertencente à CEI e Administrador Executivo da INOVA, dinamizou as questões colocadas pela audiência aos oradores.

Rita Ugarelli começou por refletir que o valor da água tem significados diferentes, dependendo com quem e para quem se fala, mas há uma concordância que para gerir este recurso equilibradamente há que ter em conta a componente social, económica, ambiental e cultural do mesmo. De acordo com a ideologia da Comissão Europeia, e consequentemente da Water Europe, a solução para conjugar esta múltipla perspetiva passa por construir uma “Water Smart Society and Economy”. Para tal, defendeu que é necessário iniciar um processo de transformação digital baseado numa lista clara de objetivos estratégicos a longo/médio prazo que evidenciem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, bem como as dimensões ambiental, técnica, social, económica e de governança. O primeiro passo será então avaliar o estado presente da Entidade Gestora e definir o a atingir, delineando um roadmap e implementá-lo de acordo com os objetivos estipulados. A comunicação e a consciencialização sobre os rumos da empresa são essenciais para o alinhamento dos níveis de decisão estratégica, tática e operacional sobre a jornada digital, assim como esta se desenvolverá, mantendo o foco nos clientes e resultados da organização. Neste âmbito, a Water Europe está a preparar um “White Paper” para apoiar as Entidades Gestoras no processo de transformação digital, tentando identificar as prioridades e barreiras ter em conta. Apologista de que a tecnologia pode realmente contribuir para a eficiência e otimização da Entidade Gestora, devendo, para tal, ser pensada para o que serve e de que forma pode acrescentar valor à organização, Rita Ugarelli sublinhou que também traz riscos e que, por essa razão, a cibersegurança deve ser considerada uma prioridade, sendo crucial passos robustos para prevenir, detetar e mitigar ataques cibernéticos. Rita Ugarelli defendeu também que, à medida que os objetivos vão sendo atingidos, a meta final converte-se num processo contínuo de crescimento, sendo que a tecnologia deve ter uma abordagem holística na organização. No que diz respeito à assimetria geracional no setor, a especialista acredita que a transformação digital deve ser encarada como uma oportunidade para mitigá-la, criando equipas colaborativas e aumentando a interação e troca de conhecimento entre os diferentes escalões de idade. Concordou também que o setor pode-se tornar mais atrativo para as novas gerações através da tecnologia, todavia, a oferta de trabalho precisa de ser repensada, tendo em conta um processo de formação adaptado e contínuo.

Ao debruçar-se sobre a disparidade relativa à maturidade digital a nível nacional e internacional, Guillermo Pascual destacou que para que a transformação digital tenha sucesso há que implementar adequadamente os processos, envolvendo as pessoas, a gestão e a tecnologia. Apesar de haver claramente um “gap” comparativamente, por exemplo, ao Norte da Europa, Guillermo Pascual afirmou que o caminho da transformação já está em curso e que o Pacto Ecológico Europeu e a nova geração de fundos previstos devem ser aproveitados para acelerar o processo de transformação digital, que deve partir da hierarquia, mas considerar todos os departamentos para que as pessoas se sintam parte do mesmo. Ao explicar que a SUEZ tem uma posição completamente diferente das restantes Entidades Gestoras de Espanha, porque é uma empresa de âmbito internacional e, por isso, aproveitado a posição para evoluir e acompanhar a mudança, Guillermo Pascual explanou como o processo de transformação foi e está a ser implementado na empresa: 1) definição de um roadmap (concluído); 2) transformação da organização (em curso); 3) implementação de projetos-chave (em curso); 4) crescimento (pendente). Estes passos têm como diretrizes a colocação do cliente no centro das decisões e a capacitação de todas as áreas com novas competências digitais para acelerar e democratizar o processo interno. Além disso, todos os departamentos devem usar a mesma linguagem. Mas antes de digitalizar há que simplificar processos, considerar a informação como um ativo e convertê-la em conhecimento. Quanto à aplicabilidade no setor de soluções como o machine learning, inteligência artificial, realidade virtual, drones, entre outras, Guillermo Pascual exemplificou como a SUEZ tem aproveitado a tecnologia de inteligência artificial para transformar as ETAR em ecofábricas e como estas se podem tornar num ativo, produzindo energia e promovendo a reutilização da água. Referiu também a forma como está a ser implementada a transformação digital nas operações, através da investigação junto dos colaboradores, incluindo os que trabalham no terreno, para apurar necessidades e perfis, conjugando o conhecimento dos vários departamentos e exponenciando-o com formação. Sublinhou também como o conhecimento tradicional está a ser convertido em “intelligence” de forma a otimizá-lo. Considerando a discrepância de gerações no setor um grande desafio, Guillermo Pascual defendeu que esta é também uma oportunidade para transformar perfis, convergindo as diferentes experiências com novas capacidades e “skills” e, mais uma vez, combinar o conhecimento com novas tecnologias. A melhor maneira de reduzir este “gap” é promover um acompanhamento conjunto da organização, o que vai gerar desempenho de alto nível, em linha com a Agenda 2030 e com o Pacto Ecológico Europeu.

Nuno Goulartt Medeiros questiona a assimetria tecnológica nacional e internacional, porque se pode correr o risco de se estar a comparar entidades com dimensões e contextos diferentes. Nesse sentido, e para apurar se realmente existe um “gap” tecnológico, sugere que talvez devessem ser estudadas empresas que estão sob o mesmo tipo de padrão e que vivem num determinado ecossistema. Ao defender que as Entidades Gestoras de grande dimensão estão já a fazer um esforço para reduzir esse eventual “gap”, apontou algumas barreiras à transformação digital a nível nacional: a fragmentação do setor, com modelos de gestão diferentes; a ausência de dados, porque a informação base é essencial para definir objetivos; a estratégia, que a ser impulsionada pela hierarquia, com uma literacia tecnológica mais forte, tem que envolver todas as camadas da organização; e a vertente financeira interna e externa à organização, muitas vezes reduzida. Concordando igualmente de que a tecnologia é uma oportunidade para beneficiar o setor e a visão sobre o mesmo, Nuno Medeiros defendeu que o alinhamento estratégico tem que olhar para o capital humano como parte fundamental, sendo a comunicação essencial na mudança coletiva da cultura da organização, uma vez que a tecnologia por si só não tem este poder. A inovação nos recursos humanos e nas operações tem de avançar em simultâneo para alcançar a transversalidade, porque a tecnologia existe e está no mercado. Na EPAL a mudança está a acontecer e com a experiência e o conhecimento das equipas, o Grupo tem feito um esforço para harmonizar a revolução tecnológica. E para uma aplicabilidade correta da tecnologia é obrigatório ouvir quem está no terreno. Por um lado, são apuradas necessidades práticas, mas desconhecidas ao nível superior, e, por outro, ao envolver os colaboradores no processo, quando chegar a altura de testar/implementar a solução, a recetividade dos mesmos vai ser muito positiva. Para Nuno Medeiros, a tecnologia é também fundamental para a gestão da eficiência dos ativos, sendo que quando se conseguir converter os dados, ainda em bruto, em informação vão surgir novas necessidades, o que eleva o processo a uma tarefa contínua. De acordo com Nuno Medeiros, a transformação digital pode igualmente contribuir para reduzir o “gap” geracional, desde que inclusiva e bem trabalhada. Em relação à captura e retenção de talento no setor, considerou que este precisa de se tornar mais atrativo, sendo que a tecnologia pode ser uma aliada nesse sentido, porém, há que investir nos recursos humanos, promover carreiras, criando uma imagem mais moderna e aliciante.

José António Pestana é da opinião de que a discrepância tecnológica a nível nacional não é assinalável comparativamente à Europa. Em Portugal, bem como em Espanha, existem empresas dotadas e capacitadas com soluções maduras, o problema é a realidade distinta entre as de maior dimensão e de menor dimensão, porque sendo financeiramente mais estruturada, consegue-se mais facilmente acompanhar a evolução da digitalização e soluções. Todavia, está a assistir-se à concentração de entidades supranacionais que visam ganhar escala, permitindo que as de menor dimensão tenham mais acesso/capacidade a financiamento e recursos humanos para se desenvolverem no âmbito da digitalização. Mas há dimensões a ter em conta nos processos de agregação, como o investimento nos recursos humanos, não só no reforço das equipas como a nível de formação, até para tornar o setor mais atrativo, como considerar que nas Entidades Gestoras do interior há mais dificuldades em recrutar recursos humanos para estas competências. Por outro lado, as Entidades Gestoras também devem ter verbas alocadas para o investimento nas soluções de digitalização, que devem estar alinhadas com a eficiência hídrica, eficiência operacional, energética, gestão de ativos, automação e controlo, e, claro, a cibersegurança. Caso a tecnologia não seja enquadrada e orientada para objetivos específicos, corre-se o risco de se tornar um gadget. É igualmente importante adequar os modelos operacionais aos investimentos realizados na digitalização para que esta acrescente valor à organização. José Pestana defendeu também que, relativamente às soluções mais recentes, a maturidade digital tem que ser incrementada para que estas tecnologias possam ser implementadas e rentabilizadas. Para tal, torna-se imperativo que os recursos humanos estejam disponíveis e focados, que seja desenvolvida capacitação, com gestão de topo incluída, e fazer a mudança adequada na introdução destas soluções. Quanto à assimetria geracional no setor, também resultante das restrições de contratação praticadas a longo prazo nas empresas públicas, José Pestana afirmou que esta é uma realidade a ser mitigada no tempo. Também apologista de que a tecnologia torna o setor mais atrativo para as novas gerações, José Pestana sublinhou ser fundamental demonstrar que o setor é uma excelente alternativa de trabalho e que pode trazer valorização pessoal e reconhecimento, mas para tal há que haver investimento.

Rui Godinho, Presidente da APDA, para quem a digitalização é uma realidade cada vez mais palpável e necessária na indústria da água, terminou a sessão elevando a importância de todas as visões partilhadas e de como também a APDA tem vindo a incrementar a vertente tecnológica, sendo os webinars como este um bom exemplo desse investimento.