WEBINAR SIIPA 2.0 - O CAMINHO DAS PERDAS DE ÁGUA EM PORTUGAL EM SESSÃO GRAVADA DISPONÍVEL

28/05/2021

A nova versão do SIIPA - Sistema de Informação de Indicadores de Perdas de Água, as boas práticas de controlo de perdas em cinco Entidades Gestoras, bem como o panorama atual das perdas de água a nível nacional foram os temas focados no Webinar SIIPA 2 0 - O Caminho das Perdas de Água em Portugal. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

Margarida Pinhão, da Tecnilab, e Rita Morais, da Águas de Coimbra, foram as moderadoras da sessão, que contou com as intervenções de Paulo Nunes, da INDAQUA, André Duarte, dos SMAS de Sintra, Pedro Pereira, dos SMAS de Mafra, Guilherme Santos, da Águas do Norte, João Santos, da EMAS de Beja, e Abel Luís, da EPAL. De destacar que todos os intervenientes são elementos da Comissão Especializada de Sistemas de Abastecimento de Água (CESDA) da APDA, à exceção de Rui Godinho, Presidente do Conselho Diretivo da Associação, que encerrou a sessão. De destacar o apoio da INDAQUA para a realização do evento.

As novidades e potencialidades da versão 2.0 do SIIPA foram apresentadas por Paulo Nunes, que destacou duas características no upgrade desta ferramenta de consulta desenvolvida pela CESDA em conjunto com a INDAQUA: o facto de incorporar a informação integral da edição 2020 do RASARP - Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal (disponibilizado pela ERSAR e que revela a atividade que as Entidades Gestoras “em alta” e “em baixa” desenvolveram em 2019), bem como a inclusão dos dados do serviço “em alta” entre 2011 e 2019, anteriormente só disponíveis para o serviço “em baixa”, designadamente a Análise de Indicadores, Comparação Anual, RASARP e Balanço Hídrico. Ao demonstrar o funcionamento da ferramenta, Paulo Nunes afirmou que a página inicial se manteve, assim como a dinâmica da ferramenta, uma vez que de acordo com o feedback dos utilizadores, esta é intuitiva e de fácil e rápida navegação. Destacou também o painel de informações disponível para agilizar o funcionamento do SIIPA e, acima de tudo, interpretar os dados facultados.

André Duarte deu início à partilha das boas práticas de controlo de perdas, neste caso, pelos SMAS de Sintra, que nos últimos anos reduziram mais de 40% das perdas de água ou água não faturada (ANF), o correspondente a três milhões e meio de metros cúbicos. Os resultados foram progressivos e têm base num conjunto de medidas eficientes que foram implementadas pelas gerações mais antigas, entre as quais: o princípio da medição em todos os locais de consumo e a adoção de bons materiais na conceção de redes. Este background em conjunto com a criação do Grupo de Trabalho de Avaliação da Eficiência de Sistemas, em 2014 (anteriormente houve outro dedicado às perdas, mas não exclusivamente e a tempo integral como este), que fez a ligação entre todos os setores da organização e identificou, desde logo, a necessidade de monitorização das redes, através da criação das Zonas de Medição e Controlo, permitiram progredir com os bons resultados. A estas medidas acresceram o desenvolvimento do programa Waternet (para obter o balanço hídrico), a criação de equipas de deteção de fugas internas e externas, a aposta na remodelação das redes e na gestão de pressões, bem como na identificação de fugas relevantes e na preocupação de manter os contadores afinados. O foco atual está na adoção dos melhores materiais para garantir um maior desempenho na rede no futuro, no entanto, de acordo com André Duarte, os colaboradores dos SMAS de Sintra, alinhados com o mesmo objetivo, foram e são a chave para o sucesso.

Pedro Pereira avançou com a experiência dos SMAS de Mafra, que nos últimos 10 anos tem uma média de perdas/ANF na casa dos 16%, o que a coloca no top 20 das Entidades Gestoras a nível nacional. Como boas práticas para o desempenho significativamente satisfatório, apontou o cadastro e a tecnologia SIG (Sistemas de Informação Geográfica), uma vez que é fundamental ter conhecimento sobre o que se gere, que tipo de infraestruturas existem e qual o estado das mesmas. Afirmando que a organização se centra diariamente no que é essencial, Pedro Moreira indicou outras medidas adotadas no combate às perdas: setorização, seleção e aplicação de materiais, reparação célere e eficaz de todas as avarias, equipas específicas de controlo de perdas, monitorização caudal mínimo noturno e rendimentos parciais. Quanto à gestão de parque de contadores, apesar de ainda não se ter conseguido um estudo sobre a idade ótima dos equipamentos, sublinhou que a substituição dos mesmos vai sendo feita consoante a legislação. Sendo ambição dos SMAS de Mafra “deixar melhor o futuro com o que temos”, Pedro Moreira afirmou que os aspetos com maior margem de progressão na temática das perdas são a gestão patrimonial, a renovação da rede, a gestão de pressões e a teleleitura.

Ao apresentar o SIIPA como uma ferramenta de indicadores que permite às Entidades Gestoras analisar a evolução dos mesmos, não só no ano presente, mas ao longo do tempo, Guilherme Santos enquadrou o serviço “em baixa” que a Águas do Norte passou a integrar em 2015. Aquando da assunção desta concessão que abrangia oito municípios, dos quais cinco com sistemas de abastecimento de água, os obstáculos à redução das perdas eram diversos, desde problemas de conceção de rede e de materiais, patamares de pressão desajustados, a que acresciam a ausência de qualquer estratégia de controlar a situação, uma vez que a principal preocupação era assegurar o abastecimento aos clientes e remediar as perdas visíveis. Não havia sequer meios para detetar perdas não aparentes, que acabam sempres por ter um impacto mais relevante do que as de grande dimensão que estão à vista. Neste âmbito, foi necessário definir um plano centrado nas perdas, que passou essencialmente pela criação e formação de equipas específicas. Esta medida estruturante, em conjunto com um trabalho de engenharia levado a cabo desde início, permitiu a aquisição de cadastro, bem como transformar o conhecimento verbal e do terreno em informação digital para, posteriormente, disponibilizá-lo de forma transversal a toda organização. Apesar de dois primeiros anos conturbados, foi possível passar de 75% de perdas, em 2015, para 45%, em 2019, valores aquém do ideal, mas que refletem o esforço e a evolução positiva com a estratégia implementada.  

A explanar o percurso também positivo da EMAS de Beja esteve João Santos, para quem a comparação entre Entidades Gestoras não é adequada, uma vez que é necessário analisar diversos fatores. Com uma rede de abastecimento antiga (que data de 1920 e remodelada por aumento urbano em 1957), a transformação aconteceu predominantemente em quatro períodos: 2007, com uma intervenção mais contextualizada na vertente energética; 2011, com foco na eficiência hídrica e que incluiu a criação de oito grandes ZMC (quatro “em alta” e quatro “em baixa”); 2015, com a criação do Gabinete de Gestão de Redes e Controlo de Perdas e aquisição de um sistema de Telegestão; e 2018, com a substituição de ramais com mais de duas reparações para evitar reincidência de avarias. Esta última medida explica os resultados significativamente positivos nos últimos dois anos: em 2020 o valor de ANF ficou abaixo dos 20%, sendo que as perdas reais passaram de 97, em 2018, para 48, em 2020. Contribuíram também a melhoria da informação para apoio às tomadas de decisão, a aquisição de um cadastro credível quer de infraestruturas, quer de ocorrência, bem como a integração de diferentes sistemas de gestão. Para o futuro está a continuidade das boas práticas adotadas, bem como outras medidas inovadoras.

Relativamente à INDAQUA, e através de uma nova intervenção de Paulo Nunes, foram expostos os valores significativamente abaixo da média nacional no que diz respeito a ANF - 14% - e de perdas reais - 43 litros ramal/dia. Segundo Paulo Nunes a explicação pode estar não no que se faz, mas como se faz. Para tal, apresentou o conceito o i-SMART Water Management, que consiste em otimizar o que já era inteligente, através de uma visão e gestão integradas, conferindo dados fiáveis e atualizados, equipamentos robustos (qualidade da informação), informação útil (análise criteriosa), meios disponíveis (humanos e materiais) e ações eficazes (planeamento e rapidez). Entre os vários modelos de gestão, apontou as concessões municipais como as que revelam maior competência e para as Entidades Gestoras que estão mesmo empenhadas em reduzir as perdas, Paulo Nunes sublinhou a possibilidade de estas poderem recorrer a serviços externos, já com ferramentas implementadas e testadas. Aqui, introduziu o contrato por performance onde destacou como característica mais interessante a forma de remuneração em função do desempenho. Além disso, há uma garantia mínima de eficiência que, caso o prestador de serviços não cumpra, tem que pagar à entidade adjudicante. Paulo Nunes defendeu que, com a ajuda disponível no mercado, quem quer realmente mitigar as perdas pode consegui-lo e devia de fazê-lo, uma vez que Portugal é um país que, para além de precisar de reduzir as perdas de água, necessita de o fazer rapidamente.

Sobre o panorama atual nacional das perdas de água no país, com base no RASARP e no SIIPA, interveio Abel Luís que desde logo enalteceu o setor, bem como a qualidade da água, tanto a nível de abastecimento, como a nível de águas balneares que Portugal apresenta. Apesar da melhoria que o país tem vindo a refletir nas perdas, Abel Luís afirmou que há ainda um longo caminho a percorrer, sendo que o setor vai beneficiar se adotar as tecnologias disponíveis e se direcionar o desenvolvimento para a sustentabilidade, que vai com certeza se sobrepor às visões economicistas. Como o maior problema do setor, identificou a falta de reabilitação das infraestruturas e as elevadas perdas reais, que são, acima de tudo, uma responsabilidade ambiental que diz respeito à sociedade. Sublinhou, nesse âmbito, o papel crucial a desempenhar por todas as Entidades Gestoras no sentido de não incorrerem a crimes ambientais, que podem colocar em causa o futuro das gerações vindouras. Na estratégia de combate às perdas, identificou também a reabilitação com bons materiais, a reparação rápida de qualquer rotura visível, a substituição de ramais, a substituição de tubos completos (em especial os de fibrocimento), a redução de pressão e a auscultação da rede para deteção de irregularidades. Abel Luís intercedeu também pela integração dos mais jovens e da necessidade de os cativar para o setor, tornando-o mais apelativo através da digitalização, inteligência e sustentabilidade ambiental.

Ao concluir a sessão, Rui Godinho enalteceu a importância da temática debatida e de como, através de sessões como esta, a APDA está a contribuir de forma prática para a melhoria do setor. Fez, nesse âmbito, referência a alguns documentos recentemente produzidos pela Associação - “Exposição sobre as dificuldades do Setor, os novos encargos e a definição de prioridades”, “Pronúncia da APDA sobre o Plano de Recuperação e Resiliência” e “Contributo para Enquadramento do PENSAARP 2030” - devidamente encaminhados e em prol deste recurso vital que é a água.