“PRIORIDADES DE INVESTIMENTO CONSIDERANDO AS ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E OS PRINCÍPIOS DA GESTÃO DE ATIVOS” COM SESSÃO GRAVADA DISPONÍVEL

29/07/2021

Promovido pela Comissão Especializada de Gestão de Ativos (CEGA) e patrocinado pela INDAQUA, o webinar pretendeu sensibilizar as Entidades Gestoras para alguns aspetos elementares, entre os quais: a repercussão das alterações climáticas na gestão dos ativos, cujo impacto pode ser devastador caso não se dê a devida atenção ao problema; a necessidade de priorizar investimentos com razoabilidade técnica e económica, e que garantam mais eficiência e resiliência aos ativos e aos sistemas que os constituem; a existência de potenciais financiamentos para o combate às alterações climáticas, disponíveis a curto e médio prazo, e como estes devem ser aproveitados, uma vez que os ativos representam uma fatia considerável dos custos operacionais e de investimento. Para assistir à sessão gravada clique na imagem abaixo.

António Mamede e Luís Nicolau, ambos elementos da CEGA, coordenaram e moderaram a sessão que contou com a participação de José Silva Ferreira, Coordenador da Equipa do PGDL - Plano Geral de Drenagem de Lisboa, Nestor Vidal, Responsável pela Divisão de Produção de Água dos SMAS de Viseu, Francisco Narciso, Presidente da Águas Públicas do Alentejo, e Pedro Cunha Serra, Consultor - Conselho Superior de Obras Públicas. Rui Godinho, Presidente da APDA, interveio no início e final do evento.

José Silva Ferreira debruçou-se sobre o PGDL, o maior investimento que o município da capital fez na área do saneamento. Começou por enquadrar a necessidade deste plano e o principal objetivo do mesmo: mitigar entre 70% e 80% os problemas das inundações provocados por eventos pluviais na cidade de Lisboa. Fez um ponto de situação sobre os trabalhos já realizados, os em curso e os futuros, sendo que, se tudo correr como o previsto, em setembro de 2024, o PGDL já vai estar solidamente implementado, beneficiando significativamente a cidade e reduzindo custos associados à resolução momentânea das inundações. José Silva Ferreira frisou também a importância do papel de todos na conservação da gestão dos ativos e o respeito pelas determinações da ERSAR. A atenção à manutenção de equipamentos simples, como sarjetas e sumidouros, foi igualmente considerada crucial para que o PGDL, ou outro qualquer plano da mesma natureza, tenha sucesso.

Nestor Vidal concentrou-se nos impactos que a seca que assolou Portugal em 2017 teve na gestão de ativos na Águas de Viseu, uma das regiões significativamente afetadas pelo episódio climático. Fez uma breve descrição da respetiva Entidade Gestora, das medidas levadas a cabo na altura para fazer face àquela realidade e das preconizadas para o futuro. Apesar de as medidas de contingência aplicadas terem evitado a rotura do sistema de abastecimento aquando da seca, ficou claro que seria necessário alterar a estratégia e considerar medidas a médio e longo prazo. Defendeu também que a nova realidade decorrente das alterações climáticas implica custos de investimento mais expressivos e incisivos, de forma a reduzir o risco associado à falha dos ativos, quer na quantidade, quer na qualidade, com consequências para os objetivos dos negócios.

Francisco Narciso falou sobre a estratégia adotada para aumento da segurança hídrica e da resiliência, mas também para fazer face às novas dinâmicas do território alentejano que, para além de vasto e com pouca população, é caracterizado por um histórico de secas. Os investimentos até agora realizados (e a maior parte dos futuros) incidem sobre ativos existentes, sendo os benefícios notórios. As intervenções em infraestruturas têm sido complementadas com uma diversificação de origens e interligação de sistemas, mas também com o apelo aos serviços de ecossistemas e reforço na interação e sensibilização das comunidades para a contenção e uso responsável da água, o que remete também para a necessidade de um alinhamento da organização. Defendeu, entretanto, que há vertentes que devem continuar a ser desenvolvidas, designadamente: reforço da monitorização; redução dos valores de ANF (água não faturada); balanceamento de águas a nível de oferta e procura; a conjugação com abordagens de avaliação de risco; e trabalhar o valor da água.

Pedro Cunha Serra abordou a disponibilidade financeira que as Entidades Gestoras poderão usufruir tendo em vista o combate às alterações climáticas, defendendo que havendo recursos financeiros há que saber canalizá-los. Sobre os diversos planos estratégicos existentes em Portugal, revelou que o país está longe de conseguir cumprir com esses planos, uma vez que em muitos indicadores, a evolução tem sido no sentido negativo e com um agravamento dos problemas.  Desta feita, os fundos disponíveis devem privilegiar projetos alinhados com os objetivos estratégicos, em detrimento dos que respondem à satisfação de interesses meramente locais ou sectoriais, sem escala, sem consistência técnica e sem retorno, social, financeiro ou ambiental. Pedro Cunha Serra sublinhou também que o conflito não resolve problemas e que é possível encontrar soluções através do diálogo, sendo as palavras-chave profissionalismo e competência, diálogo e cooperação, investimentos. Também a pandemia de COVID-19 vai deixar Portugal mais desigual, sendo necessário colocar o foco na coesão para combater essa tendência. Pedro Cunha Serra reforçou, por diversas ocasiões, que as Entidades Gestoras precisam de ser autossustentáveis e que os custos operacionais devem ser pagos através de parte das receitas, sublinhando, ainda, a importância da consubstanciação da estratégia de recuperação de gastos em todas as Entidades Gestoras.

Rui Godinho encerrou a sessão, reforçando a importância das experiências partilhadas e do tema abordado que contribuiu, decerto, para um melhor comportamento do setor da água e do saneamento em Portugal. Apologista de que que há uma necessidade real de adaptação às alterações climáticas, defendeu que a alocação dos investimentos deve considerar, no mínimo, o que é imprescindível para o desempenho eficiente do setor. Salientou, também, o elevado conhecimento e qualificação dos profissionais a nível nacional, que deve ser aproveitado em prol do setor.