MENSAGEM DO PRESIDENTE

A escassez de água e a seca podem vir a causar estragos numa escala que rivalizará com a pandemia de COVID-19, sendo que os riscos aumentam rapidamente à medida que as temperaturas globais se elevam, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Este alerta foi lançado com a recente divulgação do “Special Report on Drought 2021” pelo United Nations Office for Disaster Risk Reduction, documento que vai estar em discussão na Cimeira do Clima (COP26), em Glasgow, Escócia, no próximo mês de novembro.

"A seca está prestes a tornar-se a próxima pandemia, e não existe vacina para curá-la", segundo a Senhora Mami Mizutori, Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, para a Redução de Risco de Desastres (UNDRR).

De acordo com o Relatório, as secas já desencadearam perdas económicas de pelo menos 103 mil milhões de euros e atingiram mais de 1,5 mil milhões de pessoas entre 1998 e 2017.

Acrescenta, entretanto, que o aquecimento global e as alterações climáticas associadas contribuem claramente para intensificar as secas no Sul da Europa (onde no situamos) e na África Ocidental, com previsão de o número de vítimas "crescer dramaticamente", a menos que se atue de forma a travar esta tendência.

A ONU antevê também secas mais frequentes e severas na maior parte da África, nas Américas Central e do Sul, no centro da Ásia, no sul da Austrália, no México e nos Estados Unidos.

Cerca de 130 países podem enfrentar um risco maior de seca neste século, de acordo com as projeções de emissões altas citadas pela ONU.

Outros 23 países sofrerão escassez de água por causa do crescimento populacional e 38 nações serão afetadas por ambos.

Comparando com outros desastres naturais, as secas assumem uma maior perigosidade e danos mais profundos, por constituírem fenómenos mais prolongados. Podem durar décadas e afetar fortemente Bacias Hidrográficas, como as do Douro, Tejo e Guadiana, e outras Bacias importantes do Centro da Europa, como o Danúbio e o Reno. Estes impactos relacionam-se com alterações profundas nos padrões de precipitação em consequência das emergências climáticas (O Público, 18 de junho de 2021), e de outras mudanças globais em curso como a ocorrência de "mega cidades" e a "devastação florestal" a que se assiste.

Outros efeitos relevantes verificam-se no uso ineficiente da água, na degradação dos solos devida a práticas agrícolas inapropriadas e intensivas, onde avultam as muito elevadas extrações de águas subterrâneas, que ultrapassam nitidamente, de uma forma continuada, a capacidade de recarga dos respetivos aquíferos.

As previsões deste Relatório confirmam outras perspetivas negativas quanto à incidência no espaço e no tempo dos efeitos de secas e da escassez de água, como é o caso da insegurança alimentar e do aumento dos indicadores de probreza, estando em vias de poderem afetar o Planeta de forma sistémica.

A possibilidade de grande parte do Mundo poder vir a sofrer situações de escassez de água nos próximos anos é real, com a procura a superar largamente as disponibilidades.  

Associada às situações descritas, emerge a desertificação dos territórios, com todas as consequências inerentes nas populações, nos ecossistemas e no sistema produtivo das regiões afetadas, provocando intensos fenómenos de migrações.

Em Portugal, o processo de desertificação que já afeta uma parte do território é provocado pelos fatores de risco que o Relatório nos apresenta. 

É chegado o momento de o encararmos de frente, particularmente quando os sinais preocupantes de escassez são evidentes no Sul, Alentejo e Centro Interior do País. 

Lisboa, 23 de junho de 2021